Parece que o governo tem duas interpretações para o direito de ir e vir dos cidadãos. Em nome desse direito, a Polícia Rodoviária Federal anuncia que garantirá a qualquer custo o fluxo de veículos, segunda-feira, durante a greve dos caminhoneiros, que ameaçam estacionar seus caminhões nos acostamentos das rodovias federais em todo o País. Mas ao mesmo tempo o governo violenta essa lei ao permitir as cancelas do pedágio, impostas segundo critérios de legalidade discutível, e que impedem o direito de ir e vir dos usuários de veículos. Por isso mesmo o pedágio e suas tarifas elevadas figuram na lista de protesto dos caminhoneiros.
Se o livre trânsito por uma rodovia pública é bloqueado por uma cancela e só permitido mediante pagamento - que analistas de renome já tipificaram como confisco - isto caracteriza cerceamento do direito de ir e vir. E enquanto essa questão não se resolve, é do livre entendimento dos cidadãos que o pedágio é uma transgressão constitucional, assim como é uma quebra da ordem uma categoria profissional propiciar embaraços para o livre fluxo nas estradas, assim causando prejuízo a terceiros. -
Mas o protesto também é um direito consagrado, e a norma constitucional contempla igualmente o cidadão que circula pelas rodovias e os caminhoneiros em luta reivindicatória. Cobrança de pedágio segundo o modelo implantado no Brasil - objeto de indignação popular e de questionamentos que tramitam na Justiça - e bloqueio de rodovias por veículos de grande porte são figuras de exceção dentro de um regime de normalidade, ambas cerceadoras do direito de ir e vir.
Ademais, a afirmação do diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal de que não permitirá, "sob nenhuma hipótese", a permanência de caminhões no acostamento, segunda-feira, soa como bravata, porque o contingente de policiais rodoviários é insuficiente para um trabalho dessa envergadura, contra milhares de caminhoneiros em todo País. Não irá a Polícia Rodoviária, certamente, valer-se do uso da força, pois não é o que o momento requer, e nem a sensatez recomenda, eis que estacionar nos acostamentos não significa bloqueio de estradas.
Situações irregulares geram situações idênticas, e a manifestação dos caminhoneiros não é causa mas consequência de questões que o governo não cuidou de discutir e resolver quando devia. Passa assim, como sempre acontece, a agir sobre o problema instalado, quando poderia ter agido em busca da solução e todos esses transtornos seriam evitados. Agora, o governo vê-se às voltas com uma situação de enfrentamento que ganha as ruas - melhor dizendo as estradas - o que teria sido evitado em mesas de negociações com muito menos gasto de energia e menos desgaste perante a opinião pública.
Esta greve está anunciada há bastante tempo, o suficiente para o governo haver tomado providências em vez de deixar as coisas irem rolando, até chegar ao ponto de descontrole. Ameaças agora não resolvem. Devem os comandantes dos organismos de segurança nas estradas, isto sim, conterem-se em seus ímpetos, para que os danos não resultem ainda piores.

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