O recente atentado à Promotoria de Investigações Criminais em Curitiba e as ameaças aos promotores de Justiça do Paraná são uma natural e esperada consequência e só vêm atestar a necessidade desse trabalho heróico que o Ministério Público realiza, sobretudo em defesa da moralidade na esfera governamental. Sabem todos que é minado esse campo que os promotores de Justiça agora rastreiam, porque são grandes os interesses em jogo e muito poderosos os grupos envolvidos.
Diferentes das batalhas tradicionais que os organismos de repressão travam contra quadrilhas civis do crime organizado, esta que agora os promotores enfrentam ocorre dentro do próprio círculo da oficialidade. Por isso muito maior a repercussão, porque estão sob investigação – ou já respondendo a processos – homens públicos eleitos pelo povo ou titulares de cargos importantes, caso do ex-secretário de Segurança e do ex-delegado-geral da Polícia Civil, afora um grande número de outros nomes que compõem a lista dos 110 envolvidos no Paraná. Característica bem brasileira é que os grandes escândalos ocorrem não nas instituições privadas mas dentro da esfera governamental.
A Constituição promulgada na reforma de 1988 ampliou os poderes do Ministério Público e estendeu seus serviços em duas frentes: a preservação dos direitos dos cidadãos e a defesa do patrimônio público. Os promotores e os procuradores passaram então a atuar. Não pelo ‘‘entusiasmo de promotores jovens’’, como rebatem os que têm sido denunciados por eles, mas uma prerrogativa e um dever da própria função.
Não surpreende que os membros do Ministério Público agora sofram ameaças e que o próprio presidente da República tenha recorrido a uma medida provisória tentando limitar a ação dos seus integrantes. Então, não são apenas os atentados criminosos, as intimidações, mas a repressão do próprio governo federal, que não aprecia ver suas ações investigadas.
Medidas arbitrárias de cerceamento do trabalho dos promotores e procuradores não são necessárias porque eles já são fiscalizados por uma corregedoria interna, pelo Tribunal de Contas e pelo Conselho Nacional do Ministério Público, e, no caso dos promotores, também pelas Assembléias Legislativas. Ademais, se têm autonomia para processar agentes públicos, também estão sujeitos a processo civil e criminal. E não gozam de imunidade, diferente dos políticos que a possuem e querem preservá-la sem a incômoda presença de promotores e procuradores a investigá-los.
Deparam agora os agentes do Ministério Público, no Paraná, com o dilema de ter que atuar, de expôr-se a ameaças e atentados e ainda não poderem confiar nos organismos de segurança para protegê-los, já que estes também estão sob investigação.
Grandes reformas se fazem com gestos de coragem e não se haverá de exigir isto apenas dos promotores e procuradores de Justiça, mas também da parte sã que ainda resta na comunidade oficial e dos cidadãos conscientes e dispostos. O Brasil melhor que todos anseiam deveria ser edificado pelo povo com o governo, mas se não for possível com o governo isto será feito apesar dele.

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