Em meio à atmosfera de descrédito que cerca as administrações públicas, face às revelações escandalosas que chocaram a sociedade sobretudo no ano passado, desalenta ler agora nos jornais que, no final da legislatura passada, os vereadores de Curitiba valeram-se de uma brecha na legislação e possibilitaram um aumento substancial dos próprios salários. Em vez de discutir um aumento salarial, que lhes traria desgastes, eles revolveram sorrateiramente aprovar a lei dos jetons e passaram a receber por sessões extraordinárias. Assim, os ganhos regulamentares de R$ 4,5 mil mensais praticamente duplicaram.
O fato teria menos relevância se não ocorresse em Curitiba, sede administrativa do Estado, onde é sempre maior o palco de exemplos para os bons ou maus comportamentos políticos.
Os novos vereadores deparam-se agora com um problema ético para resolver: se mantêm ou não a lei dos jetons, mas é certo que a decisão que tomarem terá influência sobre os vereadores de todo o Estado, que poderão motivar-se a tomar medidas similares de proveito próprio se os colegas de Curitiba mantiverem o benefício, ou acautelar-se em caso contrário.
Por emenda constitucional que entra em vigor neste mês, os vereadores dos municípios com menos de 300 mil habitantes não podem receber salários superiores a 50% do que ganham os deputados estaduais. Mas idéias de prodigalidade à custa do dinheiro público, como este mau exemplo dos vereadores da capital, criam uma indução a práticas idênticas, porque a elas têm se seguido as impunidades.
Os abusos na esfera do poder vão chegando a pontos de eclosão, com o advento das CPIs, da ação corajosa e persistente do Ministério Público, da conscientização da sociedade acerca de seu próprio poder e da postura dos veículos de comunicação, que passaram a caminhar paralelos aos movimentos populares. Uma coisa puxando a outra e assim se plasmando uma nova consciência e uma nova ordem social.
Curioso que no Brasil as lutas dos cidadãos e das classes produtoras, aí incluída toda a massa trabalhadora, se travam não contra fatores externos ou de qualquer outra natureza, mas justamente contra a comunidade estatal. Forças que poderiam atuar unidas são antagônicas, tendo numa das extremidades sempre os governos.
Mas a ação moralizadora esboça sinais de implantar-se, pelos exemplos que já estamos tendo de denúncias e punições, e pelo destemor dos que se empenham nessa tarefa. Paira ainda muito desencanto entre os cidadãos sobre os seus governantes, mas os tempos são de esperança.

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