EDITORIAL
Enganam-se os que imaginam que estão imunes a escutas eletrônicas, dentro dos gabinetes governamentais. Este é um sistema de que se valem sobretudo prefeitos, para munir-se de provas caso necessário, contra aqueles que lhes fazem propostas de barganhas ou alguma forma de chantagem. É algo comum, no mínimo, a utilização de gravadores ocultos, naturalmente acionados quando for de conveniência.
Onde está o poder estão as estratégias, algumas sofisticadas, como as que o novo prefeito de Ponta Grossa acaba de detectar, em seu gabinete, e que foram instaladas pelo antecessor. Tratava-se de um complexo sistema clandestino de escuta eletrônica, com gravações de áudio e vídeo e grampo telefônico.
Óbviamente que as administrações públicas, sobretudo as marcadas por denúncias e processos de corrupção, não gravam o que conspira contra elas próprias, nem passam atestados de seus atos desonestos. As grandes negociatas nem se celebram dentro de gabinetes, mas em lugares estratégicos, porque a desconfiança é mútua entre as partes.
A existência de mecanismos de gravação clandestina não é marca de honestidade de uma administração pública, porque governantes honestos não necessitam desses artifícios, eis que não lhes ocorre ter de valer-se desse tipo de provas. Suas idéias são definidas e as atitudes transparentes, e só isto já inibe a proximidade dos que arquitetam proposições escusas.
Onde se istalam esses sistemas não é a prudência que impera, mas a desconfiança, e esta reclama ardis e estratégias como essas práticas clandestinas de escuta e gravação. A honestidade, onde ela existe, é um atributo que se basta. O exercício do poder reclama, sim, estratégias de inteligência, sobretudo nas ocasiões de administrar divergências. Mas se é honesto, o propósito de toda negociação haverá de dar bons resultados.
Se é verdade que homens que exercem atividade pública são assediados por propostas desonestas e que eles também assediam, com acenos idênticos, os que lhes podem conceder um benefício como, por exemplo, o voto favorável se a relação é com membros das câmaras legislativas também é certo que isto só ocorre entre aqueles de quem se conhece a existência de tal possibilidade. Onde não viceja a propensão para o delito não ocorrem diálogos comprometedores, então não há necessidade de vigilância alguma, nem de ratoeiras armadas.





