EDITORIAL
Não será a posição conceitual do IBGE que irá eliminar as favelas de determinadas cidades do Paraná ou diminuir o número delas em outras, porque núcleos habitacionais pobres e sem benfeitorias básicas são visíveis em toda parte, não só nos maiores conglomerados urbanos como também nos pequenos.
Pela avaliação clássica, favela é uma aglomeração desordenada de barracos, sem nenhuma infra-estrutura. Então, a um passe de mágica, pelos critérios de seu último censo, o IBGE atenua a miséria habitacional do Paraná, porque algum benefício os barracos sempre têm, como energia elétrica capturada de forma irregular.
Não tardará que, pelos resultados que o IBGE acaba de divulgar, os prefeitos comecem a alardear que suas cidades não têm favelas, ou que elas são tão poucas que isto seja considerado normal.
Curitiba já não poderá camuflar muito a realidade, pois desponta no ranking com 122 favelas, que, somadas às das cidades-satélites, sobem para 164. Números alarmantes, que obscurecem a propaganda acerca das excelências da infra-estrutura urbanística de Curitiba feita ao longo das três administrações do prefeito Jaime Lerner. Ponta Grossa figura em segundo lugar com 22 favelas, seguindo-se outras menores, num total de 207 em todo o Estado.
Mas Londrina e Maringá, pelas conclusões do IBGE, não têm favela nenhuma. Uma inverdade, porque Londrina, a segunda maior cidade do Estado, tem um grande número de núcleos habitacionais miseráveis, sobretudo assentamentos, onde há alguma forma de infra-estrutura mas que não lhes tira o caráter de favela. Maringá expandiu-se e encurralou as favelas para o municípios-bairros de Sarandi e Paiçandu, o que não exime a cidade de suas mazelas periféricas.
Naturalmente que essa conceituação do IBGE não pode ser considerada, porque é muito maior o número de núcleos populacionais miseráveis no Paraná. Afora a realidade dos grandes centros, as áreas periféricas das pequenas cidades, e sobretudo as aldeias, desconhecidas dos governantes e da grande maioria da população, são verdadeiros mocambos, com moradias sem conforto nem higiene, ruas poeirentas e população carente de quase tudo. Negar esta verdade é desconhecer o que caracteriza uma condição de vida decente e digna.
Implantou-se no Brasil a cultura míope e vesga de que é melhor ter uma casa para morar, mesmo que um barraco, do que viver ao relento - como, infelizmente, ocorre em alguns países do mundo; de que é melhor ter um salário mínimo do que não ter emprego algum. Um nivelar por baixo, cruel e perverso. O grave é que uma numerosa massa de carentes aceita essa condição, por julgar-se não merecedora de algo melhor, e isto caracteriza a maior das misérias sociais.





