Se não bastassem os grandes escândalos envolvendo milhões, que vêm ocupando o noticiário nos últimos tempos, assistimos nesse final de mandatos a grostescos casos de prefeitos fujões. Alguns hilariantes, se não fossem sérios, como os que abandonaram o cargo deixando dívidas e cofres vazios, destruíram arquivos para apagar falcatruas, fecharam a prefeitura, desapareceram sem deixar rastro, fugiram no próprio veículo oficial que os servia e escafederam-se levando pertences da prefeitura. Coisas de ladrão-de-galinha, no linguajar do vulgo. Mas nem por isso imunes à punição.
Narram os pesquisadores que a corrupção institucionalizada no Brasil tem origem nas estruturas do Estado português. Enquanto nas outras regiões do continente europeu havia o poder dos nobres, que não permitia o pleno domínio do Estado, em Portugal o rei era soberano e as questões do Reino misturavam-se a seus caprichos pessoais. Ele mandava e desmandava, e seus comandados faziam o mesmo, seguindo as ordens que emanavam da côrte e mesmo à revelia delas.
O Brasil, colonizado pelos portugueses, nasceu num momento de crise moral, política, social e econômica do Estado português. Imperava uma certa indisciplina, inconsequente e irresponsável, com um estilo de vida - sobretudo das elites - que não contemplava muito o trabalho e o esforço, mas estribava-se nos favores oficiais. Neste estado de coisas, a ética e a moralidade contavam pouco. Estavam afastadas as perspectivas do dever por parte dos cidadãos e essa mentalidade haveria de alastrar-se pelas colônias portuguesas, Brasil incluído.
Pela palavra dos pesquisadores, os monarcas portugueses e as suas sequelas foram escola para a indisciplina moral daqueles tempos em nosso país. Como o rei estava longe, era fácil aos seus ‘‘homens de confiança’’ mentir-lhe. O Brasil foi se forjando nesse clima de anti-norma, de anti-caráter, de anti-moralidade.
Atribui-se também à origem portuguesa o jeitinho brasileiro, que tem muito de útil e solidário, mas muitas vezes descamba para a burla e tantos outros malfeitos. Supostamente plasmou-se a partir daí uma deformação moral do caráter da sociedade, no que respeita aos deveres de cidadão, e esse mal nos tem acompanhado, qual estigma, e tem feito dos brasileiros fortes críticos de si mesmos, embora sem vontade de mudança pessoal de parte de cada um.
Voltando ao Brasil dos nossos dias, ao Paraná e aos prefeitos fujões, cumpre à parte sã da sociedade reclamar do Ministério Público, já tão sobrecarregado ante a avalanche de denúncias, investigações e comprovações, mais essa tarefa: a de chamar às falas esses larápios que não se equivalem em valores numéricos aos graúdos, que roubaram fortunas, mas se igualam na natureza do delito.
Uma cultura secular não se muda a um passe de mágica, mas a punição aos culpados de agora - que não deverá ser apenas para execrá-los e prendê-los mas também para obrigar que devolvam o que roubaram - significará forte exemplo a alertar os prefeitos que agora assumem e um revigoramento do ardor cívico da sociedade pela causa da moralidade pública.

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