EDITORIAL
Fotografia estampada na primeira página deste jornal, ontem, mostrando soldados israelenses, montados a cavalo, agredindo fiéis muçulmanos em Jerusalém, rememora cenas históricas vividas no cinema, sobre aquela região, e revela a triste verdade de que nada mudou de dois mil para cá naquela conturbada faixa do mundo. Justamente onde haveria de nascer um líder que deixaria grandes ensinamentos à humanidade, mas que poucos entenderam.
A véspera de Natal propicia momentos de reflexão, e outra fotografia também surpreendente, da mesma edição de ontem da Folha, mostra crianças de 8 anos vestindo fardamento militar e empunhando metralhadoras, num garboso desfile pelas ruas de Beirute em celebração promovida pelo movimento revolucionário libanês Hezbolá.
Embora o militarismo, em nossos dias, ainda seja cultuado na maioria das nações do mundo, a começar pelo ensinamento escolar de marchar e reverenciar heróis de guerra e pela exigência quase universal de os jovens prestarem o serviço militar, choca a fotografia de crianças sendo educadas para as práticas de luta armada e pisando sobre bandeiras de nações adversárias.
Será muito difícil criar a paz entre os homens se a vontade é manter a guerra, e esse propósito é manifestado na tradição de passar de pais para filhos o ensinamento da ira, naquela antiga região do mundo. Como também, em tantos outros países - e não por tradição mas pela inarredável presença da realidade - vai sendo transmitido dos adultos para os adolescentes o ensinamento da luta e do enfrentamento, se necessário com uso das armas, não por um ideal mas pela simples manutenção da vida. A fotografia é a mesma.
A partir de um certo momento da história - aquele que registrou o nascimento do mestre nazareno e que os povos cristãos celebram hoje e amanhã - dois mil anos se passaram e não foram suficientes. O mundo expandiu-se, os costumes mudaram, mas os homens preservaram como herança a tradição do confronto e não aprenderam a viver em harmonia. A paz na Terra não se estabeleceu, porque lhes faltou a boa vontade.
As iras e as hostilidades que se manifestam nas ruas estão primeiro alojadas nos corações e nas mentes, e é ali onde elas se fermentam, até chegar ao ponto de eclosão. Então, o admirável mundo novo que as pessoas almejam mas não sabem construir haverá de ser edificado a partir de cada um, porque não há outro caminho.
As agonias da vida deveriam servir de exemplo e indicar ao homem que é preciso mudar os rumos, porque é ele o artífice de seu próprio destino na face da Terra. O terceiro milênio da era cristã se inicia e as esperanças são de que não sejam necessários outros dois mil anos...





