EDITORIAL
Quando existe boa vontade entre as partes, mesmo questões difíceis podem ser solucionadas, ou ao menos atenuadas. O acordo celebrado na sexta-feira entre sem-terra, o governo do Paraná e o ouvidor do Incra, acena para uma trégua de pelo menos quatro meses nos conflitos.
As partes decidiram cumprir um cronograma que prevê o fim de novas invasões, saídas de três fazendas ocupadas, com a recolocação de 2,2 mil famílias para áreas provisórias, e o reassentamento imediato de 615 famílias que haviam sido despejadas.
O ouvidor garantiu a liberação da verba de R$ 50 milhões para a execução desse programa, e espera-se que isto aconteça rapidamente, porque a aprovação desse montante ainda depende de avaliação do Ministério de Desenvolvimento Agrário.
Nos entendimentos com a esfera oficial tudo costuma ir bem até o plano das negociações, começando as complicações no momento de liberar dinheiro, sem o qual nada se executa. Espera-se que desta vez não se retarde esta parte fundamental, sem a qual terão sido inúteis a vinda do ouvidor do Incra ao Paraná e o acordo agora celebrado.
Sabe-se que, mesmo que este plano seja executado plenamente e é o que se espera muitos problemas continuarão pendentes, nesta delicada questão da terra, mas há que se colocar fé nos propósitos dos que se assentam à mesa para negociar, como acontece agora.
É preciso restabelecer a confiança mútua entre as partes em litígio, porque o problema dos colonos sem-terra haverá de ser resolvido de vez, não só no Paraná mas em todos os pontos do País onde existem conflitos. Se uma das partes negligencia e falta com a palavra, reimplanta-se a desordem.
Há sempre os que desacreditam, até por uma tradição de que não é plenamente confiável, no Brasil, a palavra oficial, ademais quando tem a ver com as políticas do campo, um setor sempre negligenciado pelos governos. Porém, mesmo entre as descrenças, é preciso acreditar na capacidade de entendimento dos homens. Conflitos são sempre ausência de diálogo, e fora dele não há salvação.
Num país de dimensões continentais como o nosso, com tanta terra agricultável e população relativamente pequena, se comparada com países de dimensões iguais ou menores, só mesmo a intransigência e a pouca vontade política podem impedir que se resolva um problema como o do assentamento, na terra, daqueles que sabem lidar com ela e que têm vocação para a atividade agrícola.
O acordo que ora se celebra tem que ser festejado, não tanto pelo volume do problema que resolve que é apenas uma parte de tudo o que ainda há que se fazer mas pela disposição das partes em sentar-se à mesa e discutir, e afinal haver encontrado um caminho de solução.
A paz no campo resultará em paz nas cidades. É da sabedoria dos povos que os campos se bastarão por si sós e sobreviverão, mas sem eles as populações urbanas perecerão.





