Editorial
É inegável que o índice de inflação acumulado em três anos de Plano Real é digno de comemoração. O total do INPC, pesquisado pelo IBGE, foi de 64,31%, válido para famílias com renda entre 1 e 8 salários - ou de 65,51% em relação às famílias com rendimento de até 40 salários. E a comemoração é ainda maior quando se recorda que, antes do plano de estabilização, estes índices eram ultrapassados em três meses. Mas também é imperioso notar que este total ainda é elevado e significa, na melhor das hipóteses, que em três anos a moeda perdeu mais da metade de seu valor.
Apesar dos fortes motivos para se festejar, é preciso observar que ainda não se chegou ao ideal. E mais: que o trabalho feito até agora precisa prosseguir com maior dedicação e vontade, inclusive porque existe a possibilidade de se ver aqueles índices caindo. As projeções que indicam para este ano uma inflação na casa de um dígito - abaixo dos 10% -, podendo até ficar pela casa dos 5% a 7%, são consideradas valiosas. Todavia, está chegando o momento de não se aceitar apenas isto. É preciso ir além e, o que é plenamente possível, pensar até em deflação.
Impossível não é. Os especialistas têm reclamado há muito que o real não está acompanhando adequadamente a paridade cambial. E quando se observa a inflação dos últimos três anos, é preciso concordar. Quando o real nasceu, foi cotado ao mesmo valor que o dólar. E em poucos dias, o mercado colocou o dólar pouco abaixo de um real. Se nestes três anos a moeda nacional sofreu corrosão de pouco mais de 60%, e se a inflação nos Estados Unidos, no período, não deve ter chegado a 10%, temos já aí uma diferença bastante grande. Muitos exportadores afirmam até que é esta disparidade, entre muitos outros fatores, que provoca o continuado déficit na balança comercial brasileira, um dos problemas que o plano econômico ainda não resolveu.
Não é só isto, mas este é um dado importante. É impensável, ademais, provocar agora uma desvalorização da moeda para atingir a citada paridade. Entre outras coisas, isto produziria efeito cascata terrível até sobre a inflação, ameaçando mesmo todo o programa. A solução, portanto, é a de lutar ainda mais no sentido de conter os índices, de reduzir a inflação, de atingir novos limites, de fazer com que os índices nestes próximos 12 meses fiquem, na pior das hipóteses, estáveis. Esta é a tarefa mais séria para o país na sequência do atual plano econômico. Como, até agora, as reformas estruturais continuam empacadas, o déficit público persiste, os abusos não param, as dificuldades parecem maiores. Entretanto, não há alternativas, a não ser, naturalmente, o retorno à situação pré-real que ninguém, em sã consciência, pode desejar.
Na medida em que se aceita esta necessidade, abrem-se as perspectivas para o que se deve fazer. E como, infelizmente, os governantes evidenciam clara insensibilidade, a tarefa volta a ser dos brasileiros. E não é só a de vigiar preços, exigir a manutenção da estabilidade, mas é imperioso que haja mobilização para não aceitar aumentos nas tarifas públicas ou preços controlados, em níveis como se pratica ainda em alguns setores. E também é preciso pressionar para que saiam as mudanças, acabem os privilégios, eliminem-se os abusos a fim de que o Brasil de fato possa festejar a estabilidade real de uma economia sem sustos. O povo, depois de tudo o que já fez, tem o direito de exigir isto.





