EDITORIAL
Assentar os seres que nela habitam e produzir alimentos que lhes mantenham a subsistência, esta é a função da terra. Que é suficiente para todos, mas se permanece intocada como bem de capital e para fim especulativo, escasseará para alguém e se desviará de sua destinação social. É o que ocorre no Brasil, com uma vasta extensão territorial e uma população relativamente baixa, mas onde falta o espaço físico que abrigue a morada dos sem-teto, nas zonas urbanas, e o quinhão produtivo para os colonos sem-terra, que têm a vocação e a experiência para a atividade do campo.
Os movimentos que eclodem, de um lado pela invasão de terras e de outro pela defesa da propriedade, constituem o ponto de ebulição de uma negligência que veio se perpetuando, em nosso País, e que não dá mais para continuar. Nesta quinta-feira foi lançada em Curitiba uma campanha que visa reunir 2 milhões de assinaturas para solicitar ao Congresso a limitação do tamanho das propriedades agrícolas. O Brasil é o segundo país do mundo (depois do Paraguai) em concentração de terras nas mãos de poucos.
Grandes propriedades bem exploradas não constituem problema. Então, a limitação em módulos não é, por si só, a garantia de solução. O enfoque deve ser sobre a terra estacionada, que não está produzindo, que tem produção baixa ou produtividade antieconômica. Portanto, o mal não reside na grande propriedade, mas na propriedade inoperante. Dar função social à terra não significa apenas distribuí-la entre os que não a possuem, mas extrair dela tudo o que pode dar, com metodologia que a mantenha em perene equilíbrio e sustente a preservação ambiental.
E reforma agrária não haverá de ser apenas o assentamento, mas também a prática de políticas de assistência agronômica e creditícia, de armazenagem e escoamento das safras, de orientação sobre o que plantar e assegure mercado, e na extensão projetos de incentivo para a implantação de agroindústrias, no próprio meio, não apenas para os agricultores sem-terra mas também para os que já estão na terra.
Se condenamos os desperdícios, num país onde considerável parcela da população passa fome, o maior deles é não dar destino às terras produtivas do Brasil, quando tantas pessoas varridas dos campos incham favelas nos centros urbanos, elas que possuem o maior dos requisitos, que é saber lidar com a lavoura. O retorno à roça é ainda a solução para essa massa profissional de excluídos, porque ninguém perece onde há o espaço para plantar.
Muitos colonos já foram assentados, e não se pode afirmar que o governo está omisso, mas pouco se fez no Brasil pela legítima reforma agrária, porque a ela deve seguir-se uma política agrícola, que contemple não só os sem-terra mas também os com-terra, que nunca deixaram a agricultura e no entanto padecem de grande dificuldade e insegurança, porque a estes, sim, o governo sempre deu as costas.





