A falência em que se encontra a maioria das prefeituras do Paraná, assunto principal da edição de domingo deste jornal, pode ser traduzida por farra dos prefeitos. Um dia a conta dessa orgia teria que ser paga, e naturalmente pelos munícipes.
O advento da Lei de Responsabilidade Fiscal-LRF, que doravante limita os abusos da máquina administrativa, não é a culpada mas apenas revela o que realmente ocorria. Esta lei chega como uma das melhores coisas que marcam o Brasil neste final de milênio, e sem ela não se saberia dos rombos de fim de mandatos, herança sempre transferida de um prefeito para outro, como ocorre agora.
Os prefeitos que assumem em janeiro podem ir se preparando para períodos difíceis, não porque a LRF será a agente dessas dificuldades, antes o contrário, mas pelo volume das dívidas deixadas pela administração que agora se encerra e pelas anteriores.
A falência é o vulcão em erupção da festa comandada não apenas pelos prefeitos mas por todas as instituições públicas, porque corrupção, desperdício, gastos desnecessários, esbanjamentos aconteceram em todos os poderes.
Agora, o que se fez terá que ser desfeito. Funcionários admitidos serão afastados, secretarias criadas sem necessidade terão que ser extintas, gastos absurdos serão cortados. Mas nem tudo se recupera, como os desvios de dinheiro, as obras superfaturadas, construções inacabadas cujo término será antieconômico, e as célebres caixinhas que já se incorporaram ao folclórico caráter da administração pública. -
Em inúmeras prefeituras, comissionados já foram exonerados e um dos prefeitos citados na reportagem deste jornal disse simplesmente: ‘‘Demitimos aqueles que julgamos de menor importância.’’ Só agora esses servidores são considerados de menor importância, só agora se enxerga os esbanjamentos, só agora se fecham as portas do salão onde a farra correu solta.
Um prefeito reeleito afirmou que vai iniciar o ano com cautela, deixando supor que não fez isto nos anos anteriores. De repente todos posam de prudentes, mas o que ocorre é o temor da lei que, se não obedecida, resultará em cortes de verbas federais e até em cassação de mandato.
O problema, obviamente, não é apenas paranaense, mas nacional. Números da Confederação Nacional dos Municípios mostram que 70% dos 5 mil e 500 novos prefeitos poderão ter a administração complicada em face da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Ressalte-se que a LRF não complicará nada, ela saneará, mas na linguagem daqueles habituados aos desmandos este poder moralizador passa a ser um elemento complicador.
Este preço a nação teria que pagar, mais cedo ou mais tarde, porque o que ocorre com o poder público tem reflexos sobre a sociedade. Este é o custo social, se realmente queremos medidas saneadoras. Elas agora estão chegando, estribadas numa lei fortíssima que, ao que tudo indica, veio para durar.

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