Editorial
Neste mundo cada vez mais inter-relacionado - e a isto chamam globalização -, a crise no sistema financeiro de um país do outro lado do planeta pode provocar refluxos por toda parte. Neste momento, com os graves problemas econômicos na Ásia, não são poucos especialistas que começam a prever problemas gerais, atingindo outros países e até outros continentes. Um empresário norte-americano do mercado de capitais, em entrevista a um correspondente brasileiro de TV, foi enfático ao dizer que a crise pode atingir o Brasil e ao revelar que não estava mais aconselhando investimentos no País. No momento, garantiu, ainda não estava sugerindo que os investidores se retirassem, mas diante do quadro que descortinava, e aí citou as anunciadas perdas cambiais brasileiras, antecipou que esta decisão poderia ser tomada em pouco tempo.
Já o ministro brasileiro Pedro Malan, apresentando postura muito tranquila - e esta é, no mínimo, a posição que ele deve manter -, minimizou o resultado relativo às perdas de divisas, insistindo que se trata de situação natural em meio a um mercado bastante fluído, que em dado momento mostra queda e em outra apresenta recuperação. Quanto ao temor de que o Brasil pudesse enfrentar crise similar à que está ocorrendo em alguns países asiáticos, Pedro Malan foi mais enfático, garantindo que a comparação representava o tipo de análise preguiçosa sobre o mercado mundial. Com isto, entre outras coisas, quis deixar claro que a situação brasileira é muito diferente da vivida por outros países, ainda mais os da Ásia.
Não há dúvidas que o Brasil tem economia atípica. Assim não fosse, teria soçobrado nos longos anos de inflação sem controle, com a moeda se deteriorando a cada mês, com situação absolutamente anárquica a prenunciar o caos. Ao contrário do que se veria em algum país do chamado grupo desenvolvido, o Brasil conseguiu superar aspectos negativos, até que, com o atual plano de estabilização, entrou em nova perspectiva. É válido perceber, porém, que até mesmo este programa econômico não é do tipo comum, usado por outros países diante de problemas como os que o Brasil enfrentava. Embora dentro de determinados padrões, o chamado Plano Real seja uma típica solução particular, até com um certo jeitinho à brasileira.
Esta realidade permite evitar os traços de paranóia diante das crises que ocorrem pelo mundo. Devido aos múltiplos problemas que o país enfrenta e diante da situação mundial, é certo que o país não está imune diante das dificuldades externas - basta observar a queda, ontem, das Bolsas de Valores, como consequência, também, da crise na Ásia. Ademais, enfrenta ainda outros desafios internos. O empresário norte-americano que anunciava precaução sobre o Brasil, mostrando muito conhecimento da situação interna, foi taxativo ao antecipar que as reformas econômicas que o país necessita não serão adotadas nem este ano, nem no próximo, que será ano eleitoral. Isto também era o que servia como base para suas maiores preocupações.
Diante do quadro que se vislumbra, é possível considerar que aquele observador está certo. As reformas estruturais, básicas para garantir o processo de estabilidade, não parecem hoje mais próximas do que há três anos, quando o programa foi lançado. E isto, sem dúvida, produz preocupação não apenas lá fora, mas também internamente. Entretanto, diante dos resultados que se observam de modo geral, com a moeda se mantendo estável e com a economia resistindo bem aos entraves que vão surgindo, é possível manter serenidade diante da situação, sem qualquer tipo de alarmismo.





