EDITORIAL
Primeiro deixar que fosse arrombada a casa para depois verificar a segurança da porta. Foi esta a posição assumida pelos deputados da oposição, na Assembléia Legislativa do Paraná, até que conhecessem os índices do aumento da tarifa do pedágio, que agora o governo anuncia que poderão variar de 13% a 18%. Só depois disto, conforme apregoaram, eles iriam deflagrar uma campanha, podendo resultar numa mobilização para bloquear as cancelas.
A Assembléia já foi omissa quando o governo articulava a implantação do pedágio, e em momento algum buscou saber quais contratos o governador Jaime Lerner iria assinar e quais as implicações que isso traria para os usuários. Ocorreu, também aí, que primeiro se deixasse acontecer, para só depois sentir os efeitos.
A omissão foi imperdoável, pois ante a iminência de concretizar-se tão importante comprometimento era dever dos deputados envolver-se no processo e trazer à luz do exame parlamentar e ao conhecimento dos cidadãos o conteúdo desses contratos. Teriam sabido, então, de sua inconstitucionalidade, em tempo para impedir a assinatura do governador, eis que se perpretava um compromisso para vigorar por 24 anos, envolvendo os usuários de veículos e todo o sistema de transporte pesado de cargas, com reflexos diretos sobre o bolso dos usuários e sobre o custo final das mercadorias.
Conhecendo agora as dimensões do cometimento governamental, e assistindo às consequências desastrosas que se manifestam, com a iminência de se agravarem e culminarem numa situação de impasse, esta é a hora de os deputados entrarem em ação. E não apenas os da oposição mas todo o corpo legislativo, porque é preocupante a situação muito mais do que supõem os omissos e acomodados parlamentares.
A implantação da CPI do Pedágio, proposta pelos oposicionistas, vem encontrando barreiras, levantadas pela bancada que fala pela voz do Palácio Iguaçu. É natural o governo não querer a presença incômoda de uma CPI, que se realmente vier a se instalar e se aprofundar no exame dos contratos, constatará que eles ferem princípios constitucionais. O principal deles o que permite a cobrança de pedágio somente para prestação de serviço de conservação das rodovias, não podendo servir para custear obra pública, com prévia arrecadação, como vem ocorrendo. O segundo é que há uma distorção entre a arrecadação (a mais) e o custo de manutenção, o que caracteriza cobrança de natureza confiscatória.
Uma sabatina sobre qualquer parlamentar com assento na Assembléia mostrará que nenhum deles conhece a fundo o inteiro teor dos contratos. Uma CPI introduziria a questão para dentro da Casa Legislativa, e pela repercussão que provocaria no seio da opinião pública obrigaria os deputados que até agora se esconderam sob a confortável sombra da omissão a examinarem com seriedade a delicada questão do pedágio.
Na quinta-feira, os sindicatos das empresas transportadoras de cargas, das cooperativas de produção e dos caminhoneiros, e as federações da agricultura e das empresas transportadoras, assumiram uma posição conjunta questionando a não realização de obras, pelas concessionárias, a manutenção falha das rodovias e a elevação das tarifas, alertando o governo estadual que o aumento anunciado acarretará alta da inflação e custos para a sociedade.
Ao mesmo tempo, a Associação dos Usuários de Rodovias encaminhou duas representações ao procurador-geral da Justiça pedindo a suspensão dos contratos, pois não há legislação que regulamente o pedágio da forma como vem ocorrendo no Paraná, com o usuário pagando antecipadamente para realização de obras, o que é inconstitucional. Na próxima sexta-feira, o Fórum Permanente de Usuários de Rodovias realizará, em Londrina, a segunda rodada de discussão e novamente defenderá a criação da Agência Estadual dos Transportes, na qual a sociedade terá assento.
O sistema de pedágio é adotado nos países desenvolvidos, servindo aos interesses do Estado e dos usuários, com a contrapartida do lucro para as empresas concessionárias, tudo em regime de harmônica legalidade. Mas o modelo implantado no Paraná está longe de seguir os padrões internacionais.
Os paranaenses não se deslumbraram com as luzes das praças do pedágio verdadeiras bancas arrecadadoras. Então que não se iludam aqueles que imaginam haver trazido para nossas rodovias algo de Primeiro Mundo. Não da forma aqui implantada.





