A principal causa da inflação que os brasileiros enfrentaram, durante anos, foi a indexação. A medida servia para contornar alguns dos problemas que a alta continuada dos preços produzia, mas realimentava o processo inflacionário. Todos os planos econômicos lançados, do Cruzado ao atual, tinham como base o corte na indexação. O que faltava aos programas anteriores ao Real era a engenharia capaz de evitar os repiques dos preços indexados. O sucesso do atual programa de estabilização da economia é precisamente o fim da indexação. Mesmo assim, o Governo Federal continua a adotar determinadas práticas bem similares à indexação. As tarifas públicas, por exemplo, têm prazos constantes de reajuste, com uma agravante: superam sempre a inflação do período.
Agora, com os combustíveis, o Executivo Federal restaura a indexação, em ritmo trimestral. Como se sabe, os preços da gasolina, óleo diesel, querosene de aviação e gás de cozinha ficaram 11% mais caros nas refinarias. O governo considera que o aumento médio atinja 8% nas bombas para a gasolina e o diesel. Para o botijão de 13 quilos do gás de cozinha, o reajuste deve ser de cerca de 5% para os consumidores. Esse é o terceiro reajuste do ano para a gasolina, acumulando alta de 36,58% na refinaria e de 25,87% na bomba, absurdamente acima da inflação do período. Para agravar, se anuncia que haverá gatilho trimestral para os combustíveis. Diante do quadro mundial de preços do petróleo, com uma tendência de elevação constante, certamente o preço do produto vai subir a cada três meses.
No passado, altas nos combustíveis provocavam elevação nos preços em geral, com os salários seguindo à reboque. Na engenharia do Plano Real a situação é diferente. Pesquisa do IBGE divulgada esta semana mostra que o total de salários pagos na indústria brasileira em setembro diminuiu 0,3% em relação a agosto. No período de janeiro a setembro deste ano, comparado com o mesmo período do ano passado, a redução no total de salários ficou acumulada em 1,3%. Nos últimos 12 meses, até setembro, a queda no total de salários pagos foi de 3,3% e, no salário médio, 2,7%. Entre agosto e setembro, apenas a região Nordeste, entre as cinco áreas pesquisadas, mostrou aumento no total de salários (1,4%). As outras regiões registraram valores negativos. O quadro não é muito diferente nos demais setores da economia. Desse modo, além da persistência do desemprego, há também a continuidade de uma política que reduz o salário.
Nesta situação, há elementos que tornam praticamente impossível a indexação de preços. Comércio, indústria e serviços, notadamente os dois primeiros, são quase que obrigados a manter preços diante das dificuldades do consumidor que tem como única opção, face a qualquer alta, a redução nas compras. Em certo sentido, o plano de estabilização funciona, pois a inflação se mantém nos níveis projetados. Olhando de outro modo, o plano cria uma situação complexa para o trabalhador, que vai perdendo cada vez mais a capacidade de consumir, e para a economia, que não consegue eliminar os sintomas da recessão.

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