Atentado à civilização
Milhões de pessoas pararam ontem na Espanha, para prestar uma comovida homenagem ao vereador basco Miguel Angel Blanco Garrido, assassinado pelo grupo terrorista ETA, e para demonstrar aos homicidas separatistas o repúdio da nação ao crime covarde e brutal. A Espanha parou de norte a sul, de leste a oeste, por dez minutos ao meio-dia e por uma grande manifestação ao anoitecer, exigindo o fim da barbárie e do derramamento de sangue. ‘‘Basta ya’’ gritavam em coro dezenas de milhões de espanhóis, acompanhando o funeral na pequena cidade de Ermua ou orando nas praças por toda a Espanha. O assassinato frio de adversários políticos ou de pessoas inocentes é há décadas o método dos terroristas para que a Espanha dê aos bascos a autonomia de um país independente. O método é uma sandice de sangue e dor que torna o objetivo repugnante e irrealizável. ‘Estamos hartos de todo esto’, dizia qualquer espanhol entrevistado por quem que fosse ontem e anteontem.
Entre os horrores cometidos pelo ETA nas últimas décadas, este foi o mais chocante porque pela primeira vez a Espanha se ergueu num apelo dramático para que os loucos não cometessem o crime prometido na quinta-feira, dia do sequestro. Não valeram os pedidos, nem a vasta mobilização nacional: o vereador da pequena Ermua foi fuzilado, sem dó nem piedade, aparentemente pelo crime de ser do Partido Popular governante, do primeiro-ministro José María Aznar. Foi, no domingo, mais uma vítima do terror criminoso que se entranhou na vida do mundo civilizado em décadas recentes.
Para a Espanha é uma triste lição. O ETA matou mais de 800 pessoas desde sua criação e, não obstante, obteve representação parlamentar em eleições que lhe deram votações expressivas. Somente na última campanha eleitoral sua votação caiu, obtendo assim mesmo 12% do eleitorado. Há alguns anos, tentando uma solução alternativa, a Espanha abriu caminho para que a Unidade Popular, Herri Batasuna, em basco, o braço político do ETA, tivesse representação parlamentar. Era um ato de civilidade cujo objetivo era dar aos separatistas um meio legítimo de luta política, para que abandonassem o terrorismo cego e estúpido. Isto nunca aconteceu.
Infelizmente, foi um equívoco pensar em dar voz a quem faz da violência arma de luta e não aceita argumentos senão o das bombas. Acolher organizações terroristas no seio da civilização é como imitar a antiga fábula em que o homem, condoído, apanha a serpente quase morta de frio e a aquece no próprio peito. O terrorismo de grupos como o ETA espanhol, o IRA irlandês, as extintas Brigadas Vermelhas italianas e tantos outros de triste fama no mundo, não busca a paz e o entendimento: é cego a qualquer outra razão que não a sua, não aceita soluções alternativas, quer impor sua vontade e instalar sua própria ditadura.
A Espanha descobriu isto pela via mais cruel. Na despedida ao jovem político de 29 anos, economista e ex-baterista de um grupo musical, foi lançada uma palavra muito clara, do prelado que fazia o sermão. Disse ele que, naquele momento, não podia mais haver divisões. Ou se era contra o terror, ou a favor. Isto não significa que se deva fazer vingança, mas que se deve tomar uma posição firme e concreta contra o terrrorismo, e quem não o fizer é cúmplice dele e deve ser punido pela lei, tanto quanto os autores diretos do crime. Cumplicidade, referia-se, embora não tivesse dito, dos deputados da Unidade Popular, que em momento algum pediu a seus aceclas armados que poupassem a vida do refém, segundo a vontade de toda a Espanha. Silenciou o partido e, assim, compactuou com o crime.
O terrorismo, da ETA ou de qualquer organização similar, tem como princípio básico a afirmativa de que não existem inocentes. Com isto, age sem limites, atingindo a quem quer que possa estar a seu alcance. É hora de o mundo civilizado responder, mobilizado, como está fazendo a Espanha. Uma mobilização que não admite subterfúgios ou indecisões. Pois quem não está contra o terror, está com ele. O ato brutal do grupamento espanhol pode ser sua própria cova e a de todos os terroristas, se a civilização cerrar fileiras com a Espanha na proscrição do terror.

mockup