O sr. Alberto Fujimori acaba de renunciar, em seu terceiro mandato, à presidência do Peru. É vital, na análise da situação peruana, lembrar que em seu primeiro mandato Fujimori foi o autor de um golpe de Estado que fechou o Legislativo e o Judiciário e assumiu o poder total no país. A alegação para o golpe foi que os dois outros Poderes estavam atrapalhando a realização do trabalho de moralização necessária para que o país superasse seus problemas. O presidente, como tantos outros governantes autoritários, se intitulou salvador da pátria, o único capaz de enfrentar os abusos dos outros Poderes, conduzindo o país a uma nova estrada democrática.
Fujimori pode alegar que conseguiu, entre outros feitos, acabar com a guerrilha chamada Sendero Luminoso, movimento que durante décadas atormentou o Peru. Outros regimes totalitários têm usado os mesmos argumentos para esmagar movimentos contestatórios. Nem lá, nem em parte alguma, se revelam os abusos, as torturas, os crimes, as incontáveis violações dos direitos e da dignidade humanas cometidos em nome da luta contra a subversão. Alegar que só é possível combater este tipo de ameaça com medidas radicais e abusivas, acobertadas pelo manto totalitário, representa a negação do direito mínimo dos cidadãos face aos governos.
Depois de haver se imposto pela manipulação das leis, a fim de dar às suas atitudes um discutível verniz democrático, Fujimori, acossado por denúncias graves de conluio com a corrupção, simplesmente deixa o país à deriva, renunciando ao cargo. Chega a lembrar o rei Luiz XV que, em meio a abusos incontáveis, percebendo a proximidade de uma revolta popular, que se consubstanciou na Revolução Francesa, definiu a situação com a frase: ‘‘Depois de mim, o dilúvio.’’ Assim também age Fujimori, o ‘‘salvador da pátria’’ que resolve assumir uma nova nacionalidade e deixar o país, que dizia pretender salvar, entregue à própria sorte.
É muito conhecida a expressão segundo a qual o povo que precisa de salvadores ou messias está perdido. Os peruanos, quando elegeram Fujimori, não procuravam um salvador da pátria. O desejo básico de todos os povos é o de ter garantida a dignidade humana, o respeito à cidadania e a segurança para lutar pela vida. Aqueles que se intitulam ‘‘salvadores’’ escondem apenas o vezo totalitário, o desejo de impor-se aos demais, sem qualquer limitação. O que garante uma democracia não são os eventuais messias, mas o próprio povo e o respeito às leis.

mockup