EDITORIAL
A celebração do dia da Consciência Negra, que evoca o martírio do grande líder Zumbi dos Palmares, é, sem dúvida, das mais oportunas e tem um sentido elevadíssimo. O 13 de maio, data em que foi assinada a lei que acabou com a escravidão no Brasil, rememora o fim desse lamentável episódio da História nacional. A comemoração carece de importância porque costuma ser apresentada como presente do Poder ao povo. Assim como a Independência do país é atribuída a uma decisão pessoal do Príncipe, que assim concedeu a liberdade ao Brasil, também a Abolição é tida como fruto de uma certa magnanimidade do Poder, sem que os principais interessados, os escravos, tivessem qualquer participação no episódio. Com isto, além de alimentar a idéia absurda de que tudo neste país foi ou é dado pelos governantes, não valoriza a disposição dos negros em lutar contra a situação a que estavam relegados na sociedade brasileira.
Zumbi dos Palmares representa, precisamente, a força maior de uma coletividade que lutou contra a escravidão, que tentou, contra tudo e contra todos, assumir a identidade que lhes era negada pela legislação e que os tratava como objeto, negando-lhes a dignidade humana. Zumbi é luta, é afirmação, é efetiva consciência desta dignidade. O 20 de novembro, assim, evoca a coragem de um povo disposto a lutar até as últimas consequências para acabar com uma situação que era (e ainda é) indigna da própria consciência povo brasileiro.
O mais importante nesta celebração, além do sentido elevado da luta de seres humanos contra a escravidão, é a percepção de que este país, que é um dos mais miscigenados do mundo, ainda convive com inaceitáveis índices de discriminação. Os negros, no Brasil, ainda precisam lutar para conseguir afirmação na sociedade. As manifestações de racismo representam um verdadeiro e inaceitável câncer social que precisa ser extirpado. Os negros, através da evocação de fatos grandiosos como a luta de Zumbi dos Palmares, percebem a força de sua raça, como as outras, merecedora de respeito e consideração.
Para marcar as celebrações da data, acontecerá hoje, na Vila dos Palmares, o encerramento da pré-conferência sobre direito à informação histórica. Essa é uma das oito pré-conferências temáticas que antecede a Conferência Mundial Contra o Racismo, que será realizada no próximo ano, na África do Sul. Tem-se no caso real aprofundamento sobre o tema principal das comemorações e das meditações em torno do assunto. Trata-se de perceber que a luta contra o racismo, a segregação e qualquer tipo de discriminação em virtude de raça, religião ou cor entre os seres humanos deve envolver todas as pessoas deste planeta.





