Quando dava os passos finais para concluir o processo que conduziu à redemocratização, o então presidente João Batista Figueiredo exortou a população a não usar pedras para atacar os responsáveis pelos erros do passado, utilizando-as com o objetivo de construir o futuro. A preocupação do general-presidente era com o revanchismo que, feliz ou infelizmente, não faz parte da cultura brasileira. Embora a idéia seja discutível, incluindo o fato de que a anistia concedida aos que foram perseguidos e massacrados pelo regime militar também deveria abranger os algozes que torturaram e mataram pessoas inocentes, representava um esforço para estabelecer um recomeço sem traumas que complicassem a nova etapa da vida nacional.
O que ajudou muito o propósito do último general-presidente brasileiro foi o fato de que, na esteira da redemocratização, com a plena liberdade que se estabeleceu, a imprensa começou a denunciar abusos, crimes, verdadeiros assaltos que os políticos estavam cometendo contra o erário público, num festival que, efetivamente, chegou a assustar. Não havia dia, nos primeiros tempos da reabertura, sem denúncias sérias e fundamentadas contra políticos em todos os níveis. Passados 15 anos da redemocratização, o quadro continua quase o mesmo, com acusações pipocando a todo o momento e em toda parte. A quota é tão grande que existem pessoas que já se dizem cansadas deste dantesco espetáculo de roubos e abusos que parecem não ter fim.
Não se trata, verdadeiramente, de cansaço, mas de desalento, pois persiste a falta de resultados. As denúncias continuam ocorrendo, atingindo políticos em todos os níveis: em Londrina, o prefeito foi afastado, em Maringá o prefeito afastou-se por conta própria e em Curitiba acaba de ser formulada séria acusação contra o prefeito reeleito. No entanto, não acontece mais nada. Os acusados, além da eventual perda de mandato, permanecem praticamente incólumes.
O maior e mais claro exemplo disto é o do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Obrigado a renunciar em meio a uma enxurrada de acusações, ele continua a atuar, pleiteando novos cargos eletivos. Em toda a trama que resultou no afastamento de Collor, houve apenas um punido, Paulo César Farias, assassinado em circunstâncias até agora não elucidadas. Ainda assim, a morte de PC Farias mais sugere uma tentativa de ‘queima de arquivo’ para evitar que todos os crimes cometidos no episódio da campanha e eleição de Collor contra a população brasileira pudessem ser esclarecidos.
Nos Estados Unidos, que estão sendo alvo de muitas ironias diante da bagunça em que se converteu a atual sucessão presidencial, houve punições exemplares durante o intricando caso Watergate, que resultou na renúncia do então presidente Richard Nixon. O ex-presidente escapou da cadeia, devido a acordos discutíveis com seu sucessor, mas um grande número de seus antigos assessores acabou na cadeia. O próprio Nixon nunca mais voltou ao cenário político ativo. Já entre nós, Collor se lança candidato e todos os que o cercavam estão por aí na maior tranquilidade. É este o tipo de situação que está cansando o povo, ante uma democracia em que há liberdade para denunciar, mas os crimes não são punidos. Persiste a impunidade. E enquanto isto acontecer, o brasileiro terá motivos para duvidar dos princípios democráticos que regem sua vida.

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