EDITORIAL
Há 100 anos, ainda era possível aceitar os comportamentos predatórios do homem em relação à natureza, não só porque a população do planeta era muito menor, mas pelo próprio desconhecimento em relação aos nefastos efeitos que a ação humana abusiva produzia sobre a Terra. Hoje, porém, a situação é muito diferente. Há maior conhecimento da realidade, a percepção sobre os danos que o ser humano já causou ao ambiente e, principalmente, os riscos para a sobrevivência do homem face à continuidade da destruição ambiental. Apesar disto porém, numa forma de proceder inconsequente e criminosa, persistem as dificuldades para se conseguir que governos e povos modifiquem seu modo de agir, visando reduzir a poluição para garantir um modo adequado de vida no planeta Terra. As dificuldades para se conseguir atitudes concretas das nações mais desenvolvidas, visando reduzir focos de poluição, são imensas, evidenciando uma cegueira absurda que pode levar o mundo ao caos.
Em Haia, numa nova rodada internacional de negociação sobre as mudanças climáticas, prosseguem os embates entre norte-americanos e europeus, sobre o papel controverso das florestas na questão do aquecimento do planeta. As divergências ameaçam de fracasso o encontro, destinado a fixar as regras de aplicação do protocolo de Kyoto (1997), que impõe aos países desenvolvidos uma redução média de 5,2% de suas emissões de GEE entre 2008 e 2012, em relação ao nível de 1990. O debate envolve questões técnicas complexas sobre a função das florestas. Em seu momento de crescimento, árvores e plantas têm a propriedade de absorver o dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, mas emitem esse gás quando são queimadas ou apodrecem. O solo florestal ou agrícola também constitui uma importante reserva de carbono. Alguns dos grandes países poluidores, como os Estados Unidos, defendem que estes poços ou sumidouros de carbono sejam incluídos na contabilidade das emissões de gases causadores do Efeito Estufa (GEE). O fato é que converter um bosque em uma grande floresta ou transformar uma área de cultivo em campo, seria menos oneroso e politicamente aceitável do que obrigar os industriais, transportadores e cidadãos a reduzirem seu consumo de energia poluente. Os europeus se opõem argumentando que a prioridade deve ser a redução do consumo de energia e que a absorção de GEE pelos sumidouros pode ser enganosa, por não ser quantificável nem duradoura. Grupos ecologistas observadores na conferência, criticam a proposta norte-americana, que seria apenas um meio para evitar a aplicação de medidas impopulares de controle das fontes poluidoras.
Basicamente, o que a Conferência está mostrando é um esforço para fugir aos compromissos reais que deveriam ser assumidos por todos os países no sentido de mudar a situação e reduzir os elementos poluidores que ameaçam o planeta. Os países mais ricos, que são também os que mais poluem, insistem em adiar o cumprimento das obrigações previstas no Protocolo de Kyoto, agindo com a mesma irresponsabilidade que marcou a História de seu próprio crescimento, feito sobre a destruição ambiental interna e externa. Tentam usar todos os subterfúgios para evitar medidas que podem ser impopulares mas que representam, hoje, uma das mais importantes alternativas no sentido de garantir a continuidade da vida humana. Os alertas a respeito dos perigos efetivos para o homem, caso persista a destruição ambiental, não são apenas tema de alguns ecologistas radicais, mas constituem uma realidade que reclama de todas as nações uma postura mais coerente em relação ao seu próprio futuro.





