Em meio a toda a confusão que se formou, nos Estados Unidos, com a apuração das eleições presidenciais, a atual primeira dama e já eleita senadora por Nova York, Hillary Clinton, coloca mais um ingrediente ao sugerir o fim do Colégio Eleitoral que é quem elege o presidente da República. Felizmente, a esposa do presidente Clinton não pretende a mudança com efeito retroativo – quer dizer, para valer já no atual e conturbado pleito – o que daria uma conotação casuística inaceitável para o padrão de uma democracia séria, como a norte-americana. Entretanto, a idéia deve certamente provocar muitas discussões, principalmente diante do caso atual quando é possível que o candidato com mais votos (Gore) perca as eleições para o seu oponente, o republicano George W. Bush.
Para entender melhor a questão, entretanto, é preciso perceber que o sistema norte-americano, ainda que pareça estranho para muitos, tem uma base muito sólida. Quem decide o pleito presidencial não são os eleitores, diretamente, mas os Estados. É a prevalência do sistema federativo que, nos Estados Unidos, é muito forte. Com isto, pode acontece de fato que o candidato com mais votos no país acabe perdendo porque tudo depende das eleições nos Estados mais fortes, política e economicamente. Na quase totalidade das unidades federativas, o candidato à presidência que ganha (mesmo que por diferença mínima) leva, para o Colégio Eleitoral todos os votos do Estado. Assim, como está acontecendo agora, com a eventual vitória no Estado da Flórida, o candidato fica com os 25 votos eleitorais dali (o que seria suficiente para eleger Bush). Estados como Nova York e Califórnia, fortes, tem muito maior número dos chamados ‘grandes eleitores’ que as pequenas unidades da Federação.
Sob tal critério, prevalece então a força dos Estados. No Brasil a situação é diferente, de tal modo que o candidato à presidência com mais votos, mesmo que derrotado em São Paulo, Minas, Rio ou Rio Grande do Sul, é o eleito. Esta situação é considerada normal, até porque já faz parte da História democrática do país. Todavia, não se pode esquecer que políticos dos maiores Estados se queixam, e muito, do fato de que tem menos força que os outros, na Câmara Federal, por exemplo. Há até uma permanente discussão em torno da união dos parlamantares nordestinos que, muitas vezes, conseguem mais benefícios para sua região em detrimento dos Estados maiores. É um problema às avessas da Federação brasileira que, na realidade, não dá aos Estados a independência que as unidades semelhantes norte-americanas possuem.
A pretensão da sra. Clinton, sem dúvida, é a de criar um clima mais confuso face à quase certa derrota do candidato apoiado por seu partido e por seu marido. É inegável que todas as questões devem ser discutidas em uma democracia autêntica assim como é natural considerar mudanças diante de fatos ou situações reais. O problema, porém, é muito mais amplo porque envolve basicamente um dos conceitos mais importantes dentro de uma República federativa, como a norte-americana e como a brasileira. Em tese, países de extensão territorial muito grande (caso de EUA e de Brasil) devem ter estruturas do tipo federativo, até porque seria impraticável a idéia de um Governo centralizado diante de situações e realidades efetivamente diferentes.
Parece inegável que o conceito atual da federação norte-americana é muito mais completo que, por exemplo, o brasileiro. E a discussão que se possa fazer, lá como cá, sobre métodos para eleição presidencial ou melhores sistemas de Governo, deve ser baseado, precisamente, na importância que se deve dar aos Estados que precisam ser força e independência para melhor atender aos reclamos e necessidades de seu povo.

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