EDITORIAL
A reação mundial, que inclui sátiras, piadas e muitas críticas, à confusão com as eleições presidenciais norte-americanas é mais que justificada. A maior democracia (e também a maior potência) do mundo, de repente, parece ter se convertido em um destes pobres países que são constantemente criticados pelos norte-americanos por suas falhas eleitorais. Três dias depois das eleições, as dúvidas continuam. A recontagem no Estado da Flórida, que definiria as eleições, terminou mas a questão está longe de ser considerada resolvida. Os assessores do candidato republicano, George W. Bush, pedem que o candidato democrata, Al Gore, desista, reconhecendo a derrota. Todavia, em um clima digno de alguns países do chamado terceiro mundo, o que menos se espera é exatamente a desistência de Gore que, afinal, já tem uma vantagem: conquistou o maior número de votos. Como, porém, o sistema federativo norte-americano é mais complexo, o candidato com mais votos populares pode não ser o eleito porque o assunto se resolve no Colégio Eleitoral, onde os estados mais ricos e fortes têm maior número de votos e definem a eleição.
O mais importante em meio a esta confusão é o fato de que o resultado final em si pouco alterará a situação. Bush e Gore parecem o que se poderia chamar de farinha do mesmo saco. Sem dúvida, há diferenças entre as plataformas dos republicanos, de Bush, e dos democratas, de Gore. Todavia, durante a campanha, o que se observou foi que enquanto Bush tentava posar de um líder mais populista, endossando propostas de apoio às minorias, Gore procurava apresentar uma posição mais avançada. Assim, ambos acabavam apresentando praticamente as mesmas propostas, sob prismas diversos. A questão dos impostos é bem elucidativa. Bush sugere redução tributária que beneficiará os mais ricos, mas indica que a restituição que propõe atingirá, em cascata, as faixas mais carentes. Já Gore propõe reduções, mas com destinação direta dos recursos para programas sociais.
Um como outro representará pequena diferença, tanto para os norte-americanos quanto para o mundo que, sem dúvida, acompanha preocupado a definição devido à posição hegemônica dos Estados Unidos no planeta. O que causa estranheza, no caso, é a indefinição, a impressão de bagunça que a situação oferece, desmistificando até a figura de um país em que a democracia paira soberana, sem fissuras aparentes. A realidade é um pouco diferente. A metade dos eleitores sequer participou das eleições do último dia 7. Lá, dentro dos princípios democráticos, o voto é facultativo. Vota quem quer. Pelo menos a metade dos que podem votar, preferiu se abster. Não está interessada. O que se percebe é que para ponderável parcela da população norte-americana (como, aliás, ocorreria no Brasil, se por aqui o voto não fosse obrigatório) a política não interessa. Não poucos consideram que os políticos, na maior parte das vezes, atrapalham.
Até 20 de janeiro do próximo ano, dia em que deve tomar posse o novo presidente, é possível que os norte-americanos tenham resolvido o seu imbróglio. Por enquanto, o sr. Bill Clinton continua a desempenhar suas funções, enquanto sua esposa se prepara para assumir o Senado no próximo ano. E os Estados Unidos continuam a trabalhar, a produzir e a viver, numa prova cabal de que o nome de quem vai governar o país não é a questão mais importante para o povo. Vislumbra-se um novo tempo em que a política e o governo devem ocupar o lugar que lhes cabe e que é bem menos importante do que alguns pensam. Os Estados Unidos, nesta confusão, parecem estar evidenciando que o que se precisa é de um governo que não atrapalhe o trabalho da população.





