EDITORIAL
Os norte-americanos realizam, hoje, uma das mais equilibradas eleições presidenciais dos últimos 50 anos, conforme as pesquisas. Os dois principais candidatos, Al Gore, democrata, atual vice-presidente, e George W. Bush, governador do Texas e filho do ex-presidente George Bush, estão muito próximos e qualquer um deles pode se eleger. O equilíbrio, infelizmente, ocorre devido à verdadeira mediocridade dos próprios candidatos, sem carisma, sem aquela força de imagem e cárater que era própria dos grandes estadistas que o mundo já produziu. Acontece que, em verdade, não há hoje, nem nos Estados Unidos, nem no mundo, aqueles políticos que representavam por si uma força capaz de transformar a história. Não surgiu mais nenhum Roosevelt, nem mesmo outro De Gaulle, ou alguém que pudesse ser comparado a Winston Churchill. A situação dos governos pelo mundo mostra um nivelamento por baixo, com políticos pouco expressivos e aparentemente incapazes de galvanizar o povo, como no passado.
Esta transformação não é tão ruim como possa parecer. Neste final de milênio, em meio a tão profundas transformações em todos os setores da vida, o governo deixou de ser a expressão do sonho maior das populações. Para muitos, quanto menos governo (o que significa menor interferência oficial na atividade privada) melhor. Esta situação pode ser percebida tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. A violenta intervenção oficial, unida aos abusos, à corrupção, aos desvios que fazem parte dos governos em quase todo o mundo, representam atualmente um fator complicado para a vida dos cidadãos. Não por outro motivo, percebe-se atualmente uma mudança até na relação entre trabalhadores e empresários. No passado, eram inimigos figadais. No momento, surgiu a percepção de que as duas partes são fundamentais para o desenvolvimento e que quem muitas vezes atrapalha sua atuação é o governo que onera a todos e não oferece uma contrapartida concreta.
Em relação a este aspecto é interessante observar que a plataforma do Partido Republicano (de Bush) é muito mais liberal que a dos democratas. Os republicanos querem uma política tributária menos pesada que a atual, sugerindo mudanças que devolvam aos contribuintes parte do que recolhem. A crítica que se faz à proposta é a de que os mais ricos teriam maiores benefícios do que os menos afortunados. O partido contesta indicando que a restituição produzirá o famoso efeito cascata, atingindo a todas as camadas sociais. Já os democratas (de Gore) são partidários de uma política mais assistencialista. Em vez de reduzir o peso tributário, a idéia é a de redistribuir em programas sociais uma parte do imposto. Quem fará, porém, a aludida partilha é o governo, que assim se torna o grande pai a beneficiar os mais carentes.
É curioso que se indica que o governo brasileiro, ainda que de modo sutil, mostra-se partidário da candidatura Bush. Não é por causa, naturalmente, da visão tributária dos republicanos, mas devido a anunciadas tendências de maior apoio aos países do continente, uma política que interessa sem dúvida à América Latina. Como, porém, a decisão a respeito incumbe aos norte-americanos, restará ao Brasil, como a todo o mundo, apenas acompanhar a disputa e esperar os resultados. E, também, as consequências.
Não há que esperar, aliás, transformações radicais ou imediatas, nos EUA, qualquer que seja o resultado das urnas de hoje. Entretanto, é possível que se anteveja uma diretriz: vitória de Gore representaria o continuísmo da atual política; triunfo de Bush seria um sinal de que o povo quer, mesmo, menor interferência oficial na sua vida. A partir daí poder-se-ia sentir até a tendência para o futuro do mundo.





