Para o secretário-executivo da Cepal – Comissão Econômica para a América Latina e Caribe – José Antonio Ocampo, o fluxo de investimento externo para a América Latina precisa crescer entre quatro e seis pontos percentuais acima do registrado na média dos anos 90 a fim de acelerar o crescimento econômico da região a taxas desejáveis de 6% ao ano. No relatório ‘‘Financiamento do Desenvolvimento no Novo Contexto Internacional’’, divulgado pela Comissão, vinculada à ONU, Ocampo admite que a necessária elevação do fluxo externo de capital para a América Latina pode deixar a região ainda mais vulnerável a crises, o que exigiria maiores níveis de financiamento externo, observando, porém, que para evitar esse impasse o aumento de recursos externos deve vir acompanhado do incremento da poupança interna dos países.
A Cepal, que se notabilizou nos anos 50 e 60 pela defesa de um estado centralizador e principal indutor do desenvolvimento da região, acredita que o renovado acesso ao financiamento externo facilitou a administração das economias latino-americanas e caribenhas nos anos 90. Porém, a debilidade dos marcos regulatórios e da supervisão dos sistemas financeiros nacionais na prevenção e na administração de dificuldades, além de políticas macroeconômicas baseadas em ciclos, acabaram provocando uma série de crises que levaram a um novo cenário internacional.
Considerando que existe um novo contexto externo, Ocampo defende o fortalecimento da capacidade do sistema financeiro internacional como forma de prevenir e administrar crises. A Comissão também sugere a adoção de políticas macroeconômicas que facilitem o acesso dos países latino-americanos aos mercados financeiros internacionais e que incrementem os níveis internos de poupança. Ocampo indica pelo menos três ‘‘bens públicos globais’’ nos quais é preciso avançar para reduzir a volatilidade financeira mundial: maior coerência das políticas macroeconômicas dos países mais desenvolvidos, o desenvolvimento de uma estrutura financeira institucional capaz de prever a acumulação de riscos financeiros excessivos e de uma capacidade de resposta rápida frente a crises que ameaçam a estabilidade financeira internacional – neste caso, incluindo mecanismos emergenciais de financiamento e de renegociação de dívidas em situações críticas.
É fundamental observar, em todo este contexto, a preocupação relativa à necessidade de se estabelecer políticas capazes de estimular as poupanças internas, fator que pode ser decisivo, principalmente face às crises que podem ocorrer pelo mundo. Depender exclusivamente da poupança externa, através de investimentos, constitui um risco acentuado. Vale lembrar inclusive a antiga (e sempre atual) lição de Abraham Lincoln, presidente dos Estados Unidos, que ensinava que não será possível construir o progresso com base em empréstimos. É preciso que haja sólida poupança interna para garantir um desenvolvimento sustentado.
Entretanto, para que haja um efetivo aumento na poupança interna é necessária a adoção de políticas que estimulem a produção, produzam condições de aquecimento interno, criando assim reservas que formem a poupança. De um modo geral, a situação nos países da América Latina e Caribe não propicia condições concretas para isto. O ideal seria que se aproveitassem de modo melhor os investimentos externos, estimulando linhas que produzam desenvolvimento econômico que atinja as populações. A partir daí, com mais empregos e melhores salários, havia condições objetivas para estimular a poupança interna, formando-se assim a base necessária que garanta o crescimento continuado da economia.