Apesar do cargo que ocupa, o presidente Fernando Henrique Cardoso é, como repetiu várias vezes, parlamentarista. Já revelou até, há algum tempo, o sonho (que parece mais monárquico) de ver o parlamentarismo implantado no País, com ele como primeiro-ministro. Independente da percepção sobre a quase impossibilidade de uma emenda em tal sentido passar junto ao eleitorado – e dois plebiscitos o confirmam – é útil, diante do que aconteceu com as eleições municipais do mês passado, observar que se o Brasil vivesse sob o parlamentarismo o momento seria de se convocar imediatamente novas eleições federais e estaduais.
Não há dúvida que o quadro deste momento revela uma alteração profunda na vontade do eleitor em relação ao pleito de há dois anos. Assim, sob o eventual parlamentarismo, o natural seria a dissolução do Legislativo e a convocação de novo pleito. E, seguramente, o resultado apresentaria uma derrota fragorosa para o governo, tanto em termos federais como até em muitos estados.
Como porém a situação é outra, governos estaduais e da União têm ainda dois anos para tentar reconquistar o terreno perdido junto ao eleitorado, o que é possível, embora todo o quadro atual evidencie uma perda tão grande de confiança junto ao povo que o período que resta talvez não seja suficiente. Ainda assim, nos estados como no governo federal, o povo vai ter de continuar convivendo com os governadores, o presidente e também com os deputados estaduais e federais e senadores, ao menos até janeiro de 2003. É, afinal, uma das características do presidencialismo: os mandatos têm tempo definido e ainda que o titular do Executivo perca toda a popularidade, continua no cargo a não ser que seja afastado em função de algum tipo de irregularidade.
Diante porém da situação real, é fora de dúvida que a idéia que se esboçou já em nível federal e que também começa a ser veiculada no Estado, relativa a reformas do Ministério e dos secretariados estaduais parece muito bem colocada. No futebol, quando um time começa a ir mal, troca-se de técnico. No caso do governo, como não é possível mudar o chefe, a reforma do secretariado (nos estados) e do ministério no campo federal surgem, efetivamente, como alternativas usuais inclusive visando uma recomposição política que possa, de algum modo, evidenciar a intenção de mudar o perfil de administrações que não estão agradando ao povo. Não se trata de mudar por mudar mas de insistir na necessidade de que haja a sensibilidade do governante face ao momento político.
Os governantes eleitos, naturalmente, têm uma série de argumentos para justificar até mesmo debacles eleitorais como as de outubro último. Uma delas, bastante usada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, enquanto via despencar sua popularidade, era a de que tinha um mandato inteiro a cumprir e não podia ser refém de pesquisas ou de testes de popularidade. Todavia, não há como deixar de observar que na medida em que um governo se afasta do povo, quando vai perdendo a confiança junto ao eleitor, as coisas não apenas se complicam mas o próprio sentido da representatividade se compromete.
Um governo que está na contramão do povo, que não atende mais aos anseios da população, representa o oposto da idéia-base da representação política na democracia. O que salta aos olhos na situação é precisamente a necessidade de uma recomposição que diminua o fosso entre governos e populações, que ficou claro face aos resultados dos recentes pleitos municipais. É uma atitude que vai exigir muito dos chefes de Executivo, mas que representa a alternativa possível face ao quadro que se percebe na vida política atual.