Não há sofisma ou malabarismo político que possa mascarar a principal realidade saída das eleições municipais: o PT não apenas se consolidou como um dos quatro maiores partidos do País, segundo avaliam os próprios políticos governistas, mas mostrou uma grande vitalidade, mesmo onde foi derrotado. O partido disputou em 16 das 31 cidades que tiveram segundo turno, e venceu em 13 prefeituras, entre elas cinco capitais: São Paulo, Recife, Belém, Goiânia e Porto Alegre. Elegeu ainda os prefeitos de cidades estrategicamente importantes como Campinas, Guarulhos, Diadema e Mauá, em São Paulo; Londrina e Maringá, no Parana, Caxias do Sul e Pelotas, no Rio Grande do Sul. É certo que apesar desse desempenho expressivo do PT – que conquistou o total de 187 prefeituras em 2000 – a correlação de forças políticas estabelecida no primeiro turno ficou inalterada. O PMDB continua a ser o detentor do maior número de prefeituras, com 1.253. Em seguida, vem o PFL com 1.028 prefeitos eleitos e o PSDB com 990. O PSDB, partido campeão de votos no primeiro turno – 13.580.000 – não ultrapassou as quatro capitais que conquistara no dia 1º de outubro. Entretanto, é fundamental observar o crescimento da oposição, notadamente o PT, percebendo aí o sinal de uma insatisfação que pode ser considerada ainda mais séria diante da vitória da situação, no último pleito presidencial, sem a necessidade sequer de segundo turno.
A queda de prestígio do Governo Federal, aliás, vinha sendo evidenciada logo nos primeiros meses do início do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Todo o prestígio que o governo havia conseguido, meses antes, se esvaiu com a desvalorização do real e o agravamento da situação do povo, fato que foi se repetindo sem que se vislumbrasse uma real definição por parte do Executivo no sentido de modificar esse quadro. Tem faltado sensibilidade aos governantes, que continuam a dar a impressão, mesmo após os resultados das urnas de outubro, de um distanciamento da realidade, como se estivessem em outro mundo.
A dualidade que se observa no Brasil não é novidade. Há muito se comenta a existência de dois ‘brasis’: o ‘reino da fantasia’ que se encastela, principalmente, em Brasília, e o real, aquele em que os brasileiros lutam e sofrem para tentar sobreviver. O eleitor brasileiro, de modo geral, mostrou insatisfação com os rumos (ou a falta de) do País e desenhou uma nova geografia política, representando importante matéria de análise para guiar o processo sucessório, tanto em nível federal como no que tange aos Estados. Se pode vir a ser difícil a vida dos prefeitos do PT eleitos (mesmo Marta Suplicy, escolhida no principal município brasileiro, enfrentará problemas) na relação com os governos estaduais e com o Executivo Federal, a recíproca também é verdadeira: presidente e governadores não poderão fugir à necessidade de uma postura de respeito e colaboração face aos que foram ungidos pelo voto, no último pleito.
Toda a articulação política deverá sofrer mudanças. Tanto o Governo Federal quanto os governos estaduais precisam se readequar para o convívio com os prefeitos de oposição. Paralelamente, precisarão também reformular ações e conceitos, com vistas à disputa de 2002, que se anuncia muito complicada. Se é certo, como asseveram alguns, que o desempenho dos novos prefeitos há de ser importante, como fator de reforço da oposição, é igualmente percebível que a falta de definições mais concretas e que efetivamente melhorem a vida do povo, por parte desses governos, conduzirá a uma ainda mais estrondosa vitória da oposição, dentro de 2 anos.

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