As eleições realizadas ontem confirmaram de modo geral o quadro descortinado desde o primeiro turno. Os eleitores deixaram evidente, em quase todo o país, a disposição de afastar de vez lideranças comprometidas com a corrupção, buscando novos caminhos, numa demonstração de evolução-cidadã que pode ser sentida e percebida em toda parte. Não se trata, no caso, apenas do resultado em si, mas de uma definição eleitoral que, como já se antecipou com os resultados de 1º de outubro, dá evidentes sinais de uma postura muito mais critica e exigente da população que, de modo geral, mostrou-se bastante consciente de seu papel como agente de mudanças. O discurso demagógico, assim como o claro terrorismo político que alguns tentavam restaurar, foram descartados pelo eleitor que demonstrou maturidade superior ‘a de muitos políticos.
O resultado das urnas neste outubro de 2000 evidencia uma nova e importante definição do cidadão brasileiro. Não se trata apenas de considerar as importantes vitórias do PT, que ganhou inclusive a prefeitura do mais populoso município brasileiro, ou algumas derrotas, como em Curitiba, mas de perceber a dupla decisão do povo que, de um lado, mostrou-se firme contra a corrupção e, de outro, deixou clara a insatisfação com o quadro político nacional, o que inclui, além da corrupção, a falência das políticas sociais e a falta de uma adequada distribuição de rendas em favor de práticas cartorialistas e monopolistas. A cuidadosa leitura destes resultados, especialmente pelos que estão no Governo em nível estadual e federal, faz-se necessária e urgente, principalmente, para atender os permanentes reclamos de um povo que está cansado de ser enganado e roubado pelos seus representantes.
Em pronunciamento feito ontem, em São Paulo, o ministro da Justiça, José Gregori disse que os candidatos que venceram as eleições municipais devem passar a noite em claro, meditando sobre o significado dessa vitória. Está parcialmente certo. Não só os eleitos neste pleito, mas também o presidente, governadores, deputados e senadores enfim todos quantos detêm mandato com base no voto, deveriam passar a noite meditando sobre o resultado das urnas, seu significado e o que deve ser feito para corresponder aos anseios do povo brasileiro, mas que não vem sendo atendidos pelos homens públicos que teimam em fugir de suas responsabilidades, persistindo em atitudes que o eleitor deplora e, como mostrou nas urnas, não aceita mais.
Naturalmente, os candidatos eleitos, tanto ontem quanto no turno inicial, o que inclui os vereadores, precisam efetivamente se debruçar com atenção sobre o significado de suas vitórias. Todos eles são depositários de uma esperança clara de mudanças. E, principalmente, precisam encarar com seriedade a as exigências do cidadão brasileiro pela ética e pela moralidade na vida pública. O Brasil já passou por muitas fases difíceis e vive, hoje, uma nova e importante etapa. Não será demais comparar os resultados das urnas de outubro com a revolução do voto ocorrida em 1974, quando o povo mostrou seu inconformismo com a ditadura e a disposição de usar de todos os meios para reverter aquele quadro. Neste fim de milênio, em plena vivência de uma democracia que tem apenas 15 anos, as urnas repetem o brado de um povo que se define contra abusos e mentiras na administração pública.

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