EDITORIAL
Em 31 municípios com mais de 200 mil habitantes, cerca de 26 milhões de eleitores vão às urnas hoje, para definir não apenas a escolha dos respectivos prefeitos mas, sem dúvida, o novo perfil político do País, já bastante modificado em função dos resultados do primeiro turno, realizado no dia 1º. Independente do resultado final em cada um dos municípios, já se pode descortinar uma realidade diferente da vivenciada nos últimos anos.
Os partidos que formam a oposição no plano federal evidenciam um crescimento sintomático, deixando antever insatisfação com os rumos gerais da vida política no País. Sem dúvida, é possível considerar que há elementos específicos na escolha municipal. Entretanto, diante dos resultados já observados no primeiro turno, incluindo as definições estabelecidas para o segundo turno, é perfeitamente aceitável a percepção segundo a qual existe um quadro eleitoral diferente, no País, atualmente. Se esta situação vai persistir nos próximos meses, é algo muito difícil de antecipar, até porque o próprio desempenho dos novos prefeitos e vereadores e as eventuais mudanças que vão ocorrer daqui para a frente podem modificar pouco ou muito o panorama que se descortina agora. Entretanto, o que ressalta é que os eleitores estão dando claros sinais de insatisfação com a situação enfrentada neste momento no País.
O segundo turno tem características diversas do pleito normal. Em tese, quem define o resultado são precisamente os eleitores que não votaram em nenhum dos candidatos que ficaram nos primeiros lugares. Basicamente, é uma situação incômoda porque o eleitor acaba sendo obrigado a fazer uma escolha entre nomes que não tiveram sua preferência na eleição do turno inicial. Assim, não vota no que considera melhor (considerando que fez este tipo de escolha no primeiro turno) mas tem de escolher entre os dois restantes, usando então critérios diferentes. Para muitos, acaba sendo uma escolha do que considera menos pior.
Mais complicada ainda é a questão dos partidos que realizam verdadeiros malabarismos políticos na transferência de apoios, visando conquistar espaços que foram perdidos com a derrota no primeiro turno. O resultado disto tem sido uma verdadeira barafunda, dando uma clara idéia inclusive da falta, em muitos casos, de uma linha partidária concreta. Em nome não da vitória eleitoral mas de uma tentativa de salvação possível de algumas posições, partidos e políticos ensaiam coligações que chegam a chocar os eleitores mais conscientes. Este quadro, ademais, deixa bem evidente a fragilidade ainda existente no meio partidário, revelando inclusive a importância e a necessidade de uma já anunciada reforma política que venha a ser capaz de produzir uma realidade mais de acordo com os anseios do povo.
Para o eleitor, inclusive diante mesmo de todo este quadro, há de interessar menos a sarabanda política. A definição de hoje representa fundamentalmente a reafirmação do primado do povo, a quem incumbe a decisão. O voto constitui a principal oportunidade para a definição básica da vida política. Não é o único momento para o exercício da cidadania, mas é o mais importante.
Por isto mesmo é que esta escolha precisa ser valorizada ao máximo. Livre de qualquer tipo de pressão, o cidadão se encontra na urna com o único e vital compromisso com sua consciência. A evolução cívica do povo, que contrasta ainda com a demagogia e o oportunismo de muitos partidos e políticos, representa o diferencial para esta nova chamada às urnas. E pode constituir, igualmente, o ponto de partida para uma etapa melhor na vida da população. Com reflexos naturais e vitais para a própria democracia do Brasil, em mais um momento de reafirmação da vocação de todo um povo.





