A notícia segundo a qual os parlamentares brasileiros vão se beneficiar do reajuste concedido aos servidores dos tribunais superiores cai como uma verdadeira bomba sobre o cidadão brasileiro, que não consegue entender este tipo de situação. De um lado, o Governo acenando, como se estivesse dando um presente régio, com um aumento antecipado do mínimo, para algo em torno de 180 reais, a partir de janeiro do ano que vem, medida que tem toda a aparência de mais um anúncio eleitoreiro, às vésperas do segundo turno. Do outro, mais um benefício, de 11,98%, com efeito retroativo (deve ser pago a partir de abril de 1994) para os representantes do povo, com um travo ainda mais estranho porque se trata de uma decisão que está de acordo com as leis em vigor.
Às vésperas do segundo turno das eleições municipais, que envolve pouco mais de 26 milhões de eleitores em 31 municípios, a reação inicial de muitos é de desestímulo. A impressão é de que, por mais que a população deixe claro o repúdio aos abusos cometidos pelos políticos, nada impede os representantes do povo, quando se trata de conseguir vantagens. A impressão é a de que se vive, ainda, no tempo da inflação exacerbada e dos abusos de toda a ordem, quando os brasileiros tinham de ser ‘espertos’ para ‘tirar vantagem’ de tudo. Muita coisa mudou na vida nacional, mas persistem em alguns setores os mesmos vícios, a mesma falta de sensibilidade, o total desrespeito à difícil situação em que o povo vive. O fato de que este eventual reajuste vá pesar tremendamente sobre as contas públicas, o que vai refletir, de novo, sobre a população, parece não sensibilizar os políticos, que dão a impressão de que pensam, apenas, em seus próprios interesses.
Só uma coisa pode mudar esta situação: é o voto. Amanhã, eleitores de 31 municípios vão escolher novos prefeitos. Aparentemente, o pleito municipal que se completa não vai mudar as coisas, notadamente na esfera federal. Todavia, é preciso votar amanhã já com a atenção voltada para o pleito de 2002, quando será renovada a bancada da Câmara Federal, parte do Senado e também a Presidência e os governos de Estado. Se é certo que esse novo reajuste, que para o povo é verdadeiramente abusivo, tem base plenamente legal, então salta aos olhos que a solução é a mudança das leis. É preciso que haja uma percepção real no sentido de que o cidadão brasileiro não aguenta mais ser vítima de ‘direitos adquiridos’, obtidos por políticos que decidem em causa própria, sem qualquer pudor.
Pelo que se pode observar, para mudar esta situação, para acabar com leis que privilegiam determinados grupos, é necessário que o eleitor tenha muita disposição, dentro de 2 anos, para afastar, pelo voto, os políticos que vêm fazendo do cargo uma sinecura, do dinheiro público uma coisa particular, que fazem e desfazem em benefício particular, sem se preocupar com a situação do povo que os elege e sustenta.
A insatisfação popular com a corrupção, com a atuação abusiva de muitos dos atuais representantes do povo não deve se refletir no desencanto com a democracia. Ao contrário, precisa levar o eleitor à percepção de que só ele pode alterar este quadro. Para cerca de 26 milhões de eleitores, nos municípios em que ocorre o segundo turno amanhã, este pode ser o começo. E para os mais de 100 milhões que detêm o poder do voto, o processo continua: dentro de 2 anos, será a hora de responder a toda a insensibilidade dos que fazem do mandato um meio para oprimir e explorar o povo.

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