Anuncia-se que, logo em seguida ao segundo turno das eleições municipais, que se realizam no domingo, o presidente Fernando Henrique Cardoso reunirá as lideranças do Congresso para tratar da reforma política. Há quem considere que, diante dos resultados do pleito municipal, no primeiro turno, e das projeções relativas ao domingo, quando a oposição deve sair ainda mais fortalecida, seja necessária uma reforma ministerial.
São duas questões diferentes. A eventualidade de uma mudança ministerial pode ser encarada como um esforço para acomodação das bases de apoio do Executivo diante de uma série de problemas internos. Outra situação difícil de entender é a existência de parlamentares integrantes de partidos que formam a coligação de apoio ao Executivo federal que adotam postura mais oposicionista que a dos opositores efetivos de FHC. O correto, em tais casos, pelo menos do ponto de vista ético, seria que o político deixasse a agremiação. E se este tipo de postura envolve algumas lideranças partidárias, então é certo que o Governo, efetivamente, precisa recompor seus apoios. No caso, a mudança no Ministério funciona como uma espécie de moeda para cooptar apoios.
Já a reforma política é muito mais ampla e bastante necessária. O País vive uma tremenda confusão política, decorrente em muitos casos da própria evolução dos fatos, a partir da redemocratização ocorrida em 1985. Os novos partidos surgidos desde então refletem não apenas a triste herança de duas décadas de ditadura, mas também a persistência de velhos vícios que, em alguns casos, foram responsáveis pelo golpe de 64. É uma curiosa história esta da democracia brasileira que, desde a proclamação da República, há mais de 110 anos, existiu efetivamente por pouco tempo. Aos 15 anos da ditadura Vargas podem se somar os 21 do último período totalitário e, também, muitos anos de uma
pseudo-democracia, durante a chamada Velha República.
De 1945, quando ocorreu a redemocratização após a ditadura Vargas, até 1964, época do golpe que mergulhou o país em 21 anos de regime militar totalitário, foram 19 anos. É inegável para quem quer que se debruce sobre a História política do País, que foram grosseiros erros políticos, ao lado de abusos e de muita confusão provocada pelos homens públicos, que precipitaram o golpe de 64, saudado por muitos como necessário diante da baderna que o País vivia. Hoje, passados 15 anos da nova redemocratização, é mais do que tempo de se reordenar a questão política para evitar eventuais novos abalos.
Inegavelmente, o Brasil deste quase começo do século 21 evoluiu muito. Ocorre que o principal responsável pelas mudanças foi o povo que começou a perceber melhor seu papel e que com a consciência de cidadania tem sido o agente fundamental das mais importantes transformações que se registram no País. Um exemplo claro e atual disto são os resultados dos recentes pleitos municipais. O eleitor definiu bem, nesta como em outras ocasiões, inclusive nas mobilizações pelas diretas e contra o então presidente Fernando Collor, seu intenso desejo de ver mudanças na vida nacional, inclusive na esfera política. O reclamo por ética e moralidade na vida pública representa hoje um fato inequívoco. E há de ser sobre esta definida postura do cidadão que o Governo precisa se debruçar a fim de fazer desta reforma o passo definitivo para que a seriedade, honestidade e coerência passem a fazer parte da vida política nacional.