Quando as denúncias contra o então presidente Fernando Collor de Mello explodiram no país, provocando uma tremenda reação popular que acabou por forçar o político a renunciar ao cargo, para não ser cassado, chegava-se a uma nova e importante etapa no processo de redemocratização no país. Tudo o que havia acontecido com a eleição indireta de Tancredo Neves para a presidência, que marcou o fim do período totalitário, acabou conduzindo inevitavelmente aos fatos que mobilizaram o povo e o levaram a exigir a derrubada de Collor e de todo o seu esquema. Antes disto, com a renovada liberdade de imprensa e as denúncias cada vez mais graves sobre abusos de políticos, foi crescendo junto à população o sentimento segundo o qual a redemocratização não se concluiria sem uma efetiva depuração na vida pública nacional. O processo porém era e continua a ser difícil. A imprensa, fazendo seu papel, denunciava a corrupção, os desmandos, a transformação da coisa pública em propriedade privada através da ação de políticos inescrupulosos. A punição, porém, era dificil, até porque, em muitos casos, dependia da ação dos próprios políticos. E muitos preferiam defender os seus pares, na conhecida prática corporativa, em vez de lutar pela moralização da vida pública.
O brado por ética na política atingiu mais o povo que os homens públicos. E não há dúvida que, se não fosse a reação maíscula da população, face às sérias denúncias feitas contra Collor e todo o esquema que o levou ao poder e continuava a ser usado, possivelmente as coisas teriam tido outro desfecho. Funcionou então a força real de uma parcela da população que não aceitava os abusos e que queria uma efetiva mudança na vida pública. Collor caiu, outros políticos tiveram destino semelhante, com mandatos cassados e afastamento da vida pública.
A luta pela moralização na vida pública tem prosseguido, embora os resultados práticos ainda deixem a desejar. No pleito municipal que se travou no primeiro domingo deste mês, foi possível perceber que a reação do povo continua a valer. Muitos políticos de renome (no município, no Estado e até na própria União) foram devidamente rejeitados pelo povo. No Poder Legislativo, em todo o país, houve uma importante renovação, que é reflexo desta mentalidade nova que evidencia a exigência do povo no sentido de que se modifique de fato o quadro existente, com a contenção dos abusos e o desejo maior pelo fim da corrupção. O processo é tanto mais difícil porque o Brasil viveu anos de ditadura, uma época mais que propícia a todo o tipo de exploração. O regime totalitário caiu, mas os antigos vícios políticos persistem e só acabarão superados na medida em que a população mantiver-se atenta, lutando contra os que continuam a usar em benefício próprio o mandato outorgado pelo povo.
Nos Estados Unidos, o presidente da República tem, entre outros, o título de ‘‘servidor público nº 1’’. Embora pareça algo demagógica (ainda mais para os brasileiros) esta denominação, reflete o senso de realidade que deve acompanhar o legitimo regime democrático em que o político eleito está a serviço do povo. Esta idéia é básica e deveria fazer parte mesmo do ideário de uma reforma de costumes e princípios para que se tenha de fato uma legítima e bem fundamentada democracia representativa. A partir desta idéia, todos quantos ganham o mandato precisam ter plena consciência de que está a serviço do povo. E para que se mantenham na linha, é vital que a coletividade (isto é, o eleitorado) não se desmobilize após as eleições, mas se mantenha atenta, cobrando e exigindo daqueles que elege o comportamento digno de ‘‘servidores públicos’’, que realmente devem ser.

mockup