Em tese, o segundo turno das eleições municipais interessa diretamente aos eleitores que irão às urnas no domingo para escolher os prefeitos de seus respectivos municípios. Na prática, porém, ainda mais quando se leva em conta o fato de que os pleitos atingem os maiores municípios do país, a questão política se torna um pouco mais complexa. Vencer em São Paulo, Rio, Curitiba, Recife, entre outras capitais, oferece um cacife muito forte aos partidos com vistas aos próximos embates eleitorais, notadamente a sucessão presidencial de 2002. O mesmo raciocínio pode ser feito em relação aos Estados: vitórias em Londrina e Maringá garantem uma base muito forte para os partidos, na futura batalha pelos governos de Estado. Precisamente por isto e também porque a política é dinâmica e não se fecha em uma eleição, é que a campanha eleitoral se torna mais dura, envolvendo não apenas os candidatos ou partidos em cada municípios mas a praticamente todos os homens públicos, desde o presidente da República aos governadores, deputados, senadores, enfim todos quantos vivenciam a vida política. Pelo mesmo motivo é que a previsão sobre o endurecimento da campanha e a possibilidade de que os últimos dias da campanha podem ser marcados por uma queda de nível se mostra muito concreta. Na verdade, esta situação já começa a ser observada em alguns municípios, como São Paulo e Rio, ameaçando também atingir outros.
O fundamental porém é que o principal elemento nesta equação mantenha a postura que evidenciou no primeiro turno. Com efeito, o eleitorado brasileiro deu, nas eleições realizadas no primeiro dia deste mês, uma demonstração de equilíbrio e maturidade. O pleito transcorreu em clima dos mais tranquilos mas o mais importante foi, sem dúvida, o resultado: percebeu-se nitidamente uma definição do eleitor em termos claros diante do próprio quadro nacional. Houve uma efetiva manifestação de repúdio aos caciques, com o eleitor fazendo do pleito mais uma demonstração da evolução do conceito de cidadania responsável.
O segundo turno exacerba posições, mas não muda, basicamente, a questão em relação ao eleitor. Por mais que interesse aos partidos, notadamente os que estão ligados ao esquema do Governo Federal, a definição nos maiores municípios do país, quem vai decidir as coisas é o eleitor. E é certo que na escolha deve levar em conta exatamente o que é fundamental no pleito: o interesse local. A baixaria eventual da campanha dificilmente deve provocar efeito, até porque não se pode mais desconhecer que se os políticos, em grande parte, continuam a agir de modo inadequado, o eleitor brasileiro está evoluindo cada vez mais. Não é um processo atual. O cidadão brasileiro começou a modificar o seu destino através do voto já nos anos 70. Hoje, em uma situação muito mais positiva, tem maturidade suficiente para não se deixar iludir por manobras que nada tem a ver com sua realidade e suas mais ardentes necessidades.
Em Curitiba como em Londrina, em São Paulo como no Rio, no Brasil como um todo é possível perceber que o eleitor está cansado do jogo sujo da demagogia e da politiquice e quer, como já ficou muito evidente no primeiro turno, ética, honestidade, moralidade. Com a ameaça de uma eventual queda no nível da campanha, restará ao eleitor manter sua posição, fugindo aos que insistem em manter velhas práticas para continuar no jogo de abuso e corrupção que tem marcado de modo lamentável a política brasileira. O segundo turno do pleito municipal pode (e com certeza o fará) marcar uma nova e diferente era na vida política nacional, abrindo caminho para transformações que atendam aos anseios mais elevados do dono do poder nesta democracia, o povo brasileiro.

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