Logo em seguida à realização do segundo turno das eleições municipais, no último domingo deste mês, o Brasil pode entrar em uma fase de turbulência na esfera trabalhista. A melhoria de alguns indicadores econômicos deve esquentar as campanhas salariais neste final de ano, data-base de importantes categorias profissionais. Na previsão da CUT, as categorias que devem negociar os reajustes salariais neste final de ano, junto com aquelas ligadas à Força Sindical, reúnem aproximadamente 4 milhões de trabalhadores. São setores com forte representação e negociações tradicionalmente difíceis, como metalúrgicos, químicos, petroleiros, bancários, gráficos, comerciários e operários da construção civil.
Tendo como base a recuperação do emprego e da economia após o encolhimento da renda e as demissões dos últimos anos, os sindicatos anunciam que pretendem lutar pelo repasse dos ganhos das empresas aos trabalhadores. As duas principais centrais, CUT e Força Sindical, decidiram unificar suas campanhas para aumentar o poder de fogo na discussão com os empresários e estão pedindo um aumento real de 20%, além de reforçarem a proposta de redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, já lançada no início do ano. O presidente da CUT, João Felício, afirmou que, embora sua entidade não tenha estabelecido um porcentual fixo de reajuste, como fez a Força Sindical, e tenha deixado a negociação dos valores a cargo de cada setor, as reivindicações, de uma forma geral, convergem. Segundo ele, a orientação da CUT é pedir a recomposição da perdas com a inflação, que está acumulada em aproximadamente 8% nos últimos 12 meses, e negociar os aumentos reais de acordo com o desempenho de cada setor.
O negociador do Sindipeças, Dráusio Rangel, prevê um embate difícil nas próximas semanas. Ele considera inviáveis as duas principais reivindicações – os 20% de aumento e redução de jornada –, porque juntas vão representar um reajuste de quase 40%. Segundo Rangel, o que mais importa nas negociações é o desempenho do setor e do mercado de trabalho. E argumenta que a produção e a economia estão aquecidas, mas o momento ainda exige cautela. Ele observou que, mesmo com os avanços operacionais das indústrias, muitas tiveram prejuízos nos últimos quatro anos e ainda têm significativas despesas financeiras.
As reuniões de grande parte dos sindicatos patronais começam na próxima semana. O coordenador do Grupo 19 dos metalúrgicos e presidente do Sindicato da Indústria de Lâmpada e Aparelhos Elétricos do Estado de São Paulo (Sindilux), Carlos Eduardo Uchôa Fagundes, avalia que em alguns casos não será possível nem mesmo pagar a inflação acumulada no período. Para Uchôa, a elevação do nível de emprego industrial certamente concede mais ‘‘condições psicológicas’’ para os trabalhadores reivindicarem aumentos, mas a recuperação econômica, na sua avaliação, está muito calcada sobre dois setores: a indústria automobilística e de telecomunicações. Os demais não registram desempenho tão favorável. Ele acha que as discussões serão exaustivas, mas chegarão a um consenso, porque entende que as partes estão mais maduras.
O momento brasileiro é paradoxal. Há, efetivamente, um aquecimento da econômia, mas a população, de modo geral,não sentiu os efeitos dessa mudança. E esta deveria ser, sem dúvida, a preocupação básica, tanto dos sindicalistas quanto dos empresários: garantir que um número maior de brasileiros seja beneficiado por este crescimento, o que só será possível com ponderação e bom senso nas discussões que se anunciam para o próximo mês.