Com um apreciável ágio de 303% sobre o preço mínimo, o Banco do Estado do Paraná, Banestado, foi vendido ontem para o Itaú, por R$ 1,625 bilhão, em um leilão que acabou sendo mais tranquilo do que se poderia supor. Os outros concorrentes foram os bancos Bradesco e Unibanco que, em seu primeiro lance, ofereceram R$ 710 milhões (ágio de 75,9%) e R$ 1,251 bilhão (ágio de 210%), respectivamente. O Itaú venceu a disputa depois de o Unibanco ter realizado oferta máxima de R$ 1,580 bilhão. Os recursos arrecadados pelo governo do Estado do Paraná serão destinados ao abatimento da dívida com a União. Logo em seguida à conclusão do leilão, o executivo Rodolfo Fischer, diretor do Itaú, garantiu que o banco manterá a marca Banestado, lembrando que a aquisição deve aumentar em 10 vezes as agências do grupo Itaú no Estado do Paraná. Segundo Fischer, a compra do Banestado foi estratégica para o Itaú.
O leilão, realizada na Bolsa de Valores do Paraná, esteve em dúvida até o último minuto, pendente de decisões na justica, que estudava vários pedidos de suspensão, tendo sido retardada por mais de uma hora, até que foi suspenso um último recurso, que pedia o cancelamento da venda.
O bater do martelo marca o final de uma etapa na vida econômica do Estado. Um estabelecimento que foi criado com a finalidade de servir de modo direto à população do Paraná, o Banestado executou, por bom tempo, este papel.
Infelizmente, não só no Paraná como em muitos estados brasileiros, o uso político dos bancos estaduais acarretou enormes prejuízos e, em muitos casos, inviabilizou sua manutenção como instituição pública. Este foi o caso do Banestado, que deixa como herança uma dívida de R$6 bilhões, para os paranaenses pagarem.
Na verdade, a venda agora concretizada não pode representar o encerramento da questão, com uma espécie de perdão implícito para os desvios e abusos cometidos naquela instituição. Vale lembrar no caso o discurso feito pelo general João Batista Figueiredo, o último presidente do período totalitário, quando a redemocratização era inevitável. Ele sugeriu que ao invéz de se lançar pedras sobre o passado (o que implicava em criticar os muitos que, de fato, cometeram enormes crimes contra o Brasil e os brasileiros) se as usasse para construir o futuro. A tese é válida, mas é inegável que o tipo de perdão que a idéia sugere é perigoso. Assim como é difícil perdoar crimes contra a humanidade cometidos durante períodos ditatoriais, também não se pode considerar perdão para assaltos cometidos contra o erário público.
Isto significa que, fundamentalmente, o leilão do Banestado não pode representar o encerramento das investigações que se fazem a respeito de uma série de crimes já denunciados, tanto envolvendo o estabelecimento como outros organismos a ele ligados. Há também a considerar no caso a necessidade de o Governo do Estado adotar medidas sérias em relação às ações da Copel que servem, atualmente, como garantia no Banestado, agora propriedade do Itaú. É fundamental que no interesse do Estado e dos paranaenses, haja o resgate das ações que representam um patrimônio do povo. É até possível (e parece quase certo) que a Copel também venha a ser privatizada. Mas é preciso que este patrimônio seja defendido e que, em caso de efetiva venda, o valor corresponda a tudo o que vale esta que é uma das mais importantes empresas de energia do país.