EDITORIAL
Os percentuais até podem iludir. Com efeito, a revelação da FAO, agência das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, segundo a qual 13,8% da população do planeta sofrem de fome crônica representa uma melhoria diante dos valores observados há meio século. Naquela época, os dados eram mais duros, revelando que um terço da humanidade passava fome. Tivesse persistido a situação, haveria hoje 2 bilhões de seres humanos na faixa da miséria. Atualmente, o total é de 828 milhões. Números e percentuais, porém, servem para mascarar a realidade individual. O drama dos famintos não pode ser medido em números, mas tem de ser observado na sua inteira realidade, na fome que ronda as favelas de Londrina, de Maringá, de Curitiba, de todos os municípios deste país que tem a melhor terra do mundo, clima fantástico que garante a possibilidade de produção permanente de alimentos, mas que abriga 57 milhões de pessoas na faixa da miséria. Esse número representa 35% da população, percentual bem maior que o da América Latina e Caribe, que registram 13% de famintos.
Há um outro dado da FAO que é, também, alentador, na análise puramente numérica. Há meio século, segundo levantamentos criteriosos, o mundo vivia uma situação realmente terrível no que diz respeito à fome porque, conforme estudos muito bem fundamentados, a produção de alimentos era insuficiente para garantir um mínimo de comida a todos os habitantes do planeta. Isto significava que, se houvesse uma divisão justa dos alimentos produzidos pela população, todos passariam fome. Atualmente, o quadro mudou. Em função de avanços significativos na produção, o total de alimentos produzidos é suficiente para alimentar os 6 bilhões de seres humanos que habitam a Terra. O problema atual, então, não é mais o de produzir, mas sim o de distribuir.
Aí está, em realidade, o grande desafio do mundo e do Brasil: distribuir de modo adequado a comida para que não falte para ninguém. Esta parte da equação, porém, é a mais dificil e complicada. A situação brasileira é típica: este ano percebe-se um crescimento econômico, o que não vinha acontecendo há muito tempo. Entretanto, este aquecimento da economia ainda não chegou a atingir efetivamenmte a faixa mais carente da população. A falta de políticas que efetivamente objetivem levar os benefícios deste crescimento representa o fator mais sério da questão, reclamando-se a adoção de medidas que passem além dos atos de caridade pública e privada, que não estão sendo suficientes para alterar todo este quadro.
Hoje, no Dia Mundial da Alimentação, a FAO revela os dados dramáticos da miséria no mundo ao tempo em que lança o desafio para o milênio que vai se iniciar: produção de alimentos e distribuição igualitária de renda entre a população mundial. Há até um slogan, cunhado pela FAO e que enfatiza: Um milênio sem fome. É uma proposta maravilhosa que, entretanto, não se concretizará apenas com o anúncio de boas intenções, com discursos mais ou menos inflamados ou com a distribuição de cestas básicas para os mais carentes. Há que enfrentar o problema de modo corajoso, inclusive com a adoção de legislação tributária que facilite a melhor distribuição de renda. Com efeito, conforme estudos recentes, sabe-se que os mais pobres, no Brasil, são os que pagam mais impostos, enquanto os ricos acabam escapando não só pela sonegação mas através das vantagens que as leis oferecem. Falar que existe concentração de renda no país, que a distribuição de recursos é falha, é fácil. Para mudar isto é preciso começar e uma boa reforma tributária poderia marcar o inicio efetivo de transformações que reduziriam a fome e, quem sabe, tornassem real em pouco tempo slogan da FAO.





