EDITORIAL
Levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, mostra o recrudescimento da pobreza no País. Segundo a pesquisa, em 1999 o índice de pobreza subiu dos 33,4% registrados em 1998 para 34,9%, o que significa na prática que 54,1 milhões de brasileiros não têm dinheiro suficiente para comer, vestir-se e custear os gastos com saúde e educação.
Embora estes dados tenham sido veiculados por um organismo oficial, o presidente Fernando Henrique Cardoso minimizou os resultados, assinalando que o estudo reflete a crise do ano passado, enfatizando que se trata de um dado econômico, não social, que não reflete o que aconteceu na saúde, na educação e no acesso à terra.
Em sua atual passagem pela Europa, onde comentou este levantamento, o presidente da República tem enfatizado o sucesso do governo no combate à pobreza. Na semana passada, Fernando Henrique traçou para autoridades, líderes econômicos e políticos da Alemanha um quadro favorável de desenvolvimento social no Brasil, afirmando que o governo avançou na solução do problema, embora ainda haja um longo caminho a percorrer. O mesmo relato o presidente fez durante encontro com o primeiro-ministro dos Países Baixos e repetiu em entrevista coletiva concedida após a reunião.
Fernando Henrique subestimou a importância dos índices, insistindo que o trabalho indica uma pequena diminuição da renda, não da educação, da saúde e do acesso à terra. Para ele, a crise resultante da desvalorização do real levou à redução do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e a distribuição per capita de renda também caiu. O presidente voltou a expor a nova tese do governo, de que o desenvolvimento econômico por si só não é mais suficiente e que é preciso conciliar a estabilidade da moeda com o crescimento social.
Segundo o presidente, esta visão credencia o Brasil a participar mais ativamente do processo de reformulação da arquitetura financeira mundial. Fernando Henrique voltou a criticar o atual modelo de globalização e a cobrar solidariedade dos países desenvolvidos aos mais pobres.
A situação de FHC não é confortável. Confrontado por números oficiais face a seus arroubos de como solucionador de todos os problemas do País, ele sem dúvida tem poucas alternativas a não ser questionar os números. Entretanto, a grande maioria da população não precisaria sequer dos índices revelados pelo Ipea para perceber a realidade em que vive.
O País pode estar, efetivamente, vivendo uma nova fase de crescimento econômico, segundo dados confiáveis revelados não só por entidades nacionais como, também, por importantes órgãos internacionais. Todavia, salta aos olhos que esta aparente retomada do desenvolvimento econômico ainda não atingiu as camadas mais pobres. Ao contrário, o quadro continua a ser muito grave e o aumento percebido pelo estudo do Ipea no total de pessoas vivendo em condições precárias reflete uma realidade que o povo vivencia.
O plano de estabilização econômica, lançado pelo governo federal há 6 anos, obteve de fato sucesso ao reduzir, conforme números oficiais, o total dos brasileiros que viviam na faixa da miséria. É certo, porém, que esta redução não só estancou como sofreu uma reviravolta.
O quadro apresentado pelo Ipea representa uma amostragem real que deve ser enfrentada sem subterfúgios ou tentativas para minimizar a realidade. O caminho concreto é este: reconhecer a situação e buscar alternativas porque, sem dúvida, no momento em que se sente uma efetiva (embora ainda pequena) retomada do crescimento é preciso que haja medidas para levar estes benefícios diretamente à população, notadamente aos mais carentes.





