Mais de 5 mil crianças morrem diariamente em decorrência de doenças relacionadas à água suja, segundo relatório das Nações Unidas sobre o problema do saneamento. Este é um entre muitos temas que merecem ser enfocados nesta Semana da Criança, ocasião em que se evoca muito a situação delas, no Brasil e no mundo, e que oferece, então, possibilidades para uma reanálise. E, quem sabe, a busca de soluções, que não são tão dificeis.
Com efeito, a própria ONU assinala que se os governos em todo o mundo se comprometessem em projetos locais, poderiam assegurar que todos tivessem acesso à água potável e higiene adequada dentro de 25 anos. Brian Appleton, um especialista em água e saneamento da Organização Mundial de Saúde, faz o alerta, informando que há mais pessoas sem rede sanitária apropriada este ano do que no ano passado, antecipando que haverá muitas outras no ano que vem, porque o mundo está perdendo a batalha do saneamento, principalmente por não estar enfrentando a questão de modo adequado.
O relatório mostra que houve alguns progressos nos últimos 20 anos no suprimento de água potável, mas a higiene e o saneamento são um assunto diferente. O Relatório Vision 21 encoraja um repensamento radical das políticas de suprimento de água. Mais do que alta tecnologia ou projetos caros, a responsabilidade deveria ser dada a organizações comunitárias locais e chefes de família, no entendimento de especialistas da ONU para quem as fontes comunitárias, apoiadas pela energia e iniciativa dos locais multiplicam tremendamente o impacto de cada dólar que se aplique no trabalho. Richard Jolly, diretor da Conselho de Suprimento de Água e de Saneamento, co-patrocinado pela Agência de Saúde das Nações Unidas, enfatiza que as iniciativas com base nas comunidades são entre dez e vinte vezes mais baratas do que os projetos planejados em um centro único.
Esta é uma importante pista na eventual (e séria) busca de soluções para o drama que afeta não apenas as crianças mas, também, os adultos. Trata-se de dar ênfase a aspectos localizados, oferecendo às lideranças comunitárias condições para resolver efetivamente as questões ligadas ao saneamento básico.
O Brasil, com sua imensa extensão territorial, resolveu, nos tempos da ditadura, centralizar quase todas as questões, inclusive a da água e saneamento básico. A alegação era a de que obras como as de recolhimento e tratamento de esgotos reclamavam verbas que os municípios não podiam dispensar, tornando-se mais fácil e completo um trabalho em nível estadual. O resultado não foi o melhor e hoje os especialistas em todo o mundo contestam este tipo de solução. A constatação de que programas locais são mais baratos é de vital importância.
Neste, como em tantos outros assuntos ligados à administração pública, o que se reclama de início é aquilo que se convencionou chamar de ‘‘vontade política’’. Governos, de modo geral, tanto o federal quanto os estaduais, sempre alegam, para não realizar tais ou quais programas, a falta de recursos. Trata-se, porém, de algo mais profundo: diante de situações como esta, com todos os males provocados pela inadequada (ou inexistente) rede de saneamento, o que se reclama é de efetiva disposição para priorizar o assunto e enfrenta-lo.
Mais importante que todos os discursos que se possam fazer – e esta Semana da Criança é pródiga em tal tipo de pronunciamento – são atitudes concretas visando atacar os problemas como este do saneamento. A questão dos recursos deve ser observada sob o contexto do aproveitamento. De fato, as vidas que podem ser salvas com saneamento básico compensam em muito o que se possa gastar para oferecer isto à população infantil e ao povo em geral.