Aqueles que acreditam que o terceiro milênio trará uma era de reais mudanças na vida da humanidade, vibram: acaba de cair mais um ditador. Slobodan Milosevic, que é um dos mais conhecidos criminosos de guerra da atualidade, pressionado por uma população esgotada por seus abusos, entregou o poder ao candidato que, legitimamente, ganhou o pleito na Iugoslávia, Vojislav Kostunica. Não foi fácil: Milosevic, como tantos tiranos ao longo da História, fez o possível, o impossível e, naturalmente, o inaceitável para se manter no cargo. Rejeitado pelo povo, que sacrificou ao longo dos anos, inclusive quando provocou a comunidade internacional com os crimes contra Kosovo, levando o seu país e sofrer pesados e terríveis bombardeios, o tirano só recuou porque foi forçado por uma situação. Tentou fraudar as eleições, em que foi derrotado, procurou artifícios e só foi forçado a entregar o poder porque, finalmente, o povo o forçou a isto.
Ao longo dos anos, muitos tiranos tentaram usar, quando nem mesmo a força já produzia resultados, de ardis destinados a enganar o seu povo e, principalmente, o público exterior. Convocar eleições e fraudá-las através dos mais diferentes meios tem sido um dos modos muito usados neste século, principalmente. Afinal, vale lembrar que os países dominados por tiranias comunistas se intitulavam ‘Repúblicas democráticas’. Uma democracia ‘diferente’ em que só havia um partido, os candidatos eram os que o Poder aceitava, sem contar com uma forte repressão policial-militar destinada a conter qualquer veleidade realmente democrática do povo. As mudanças que ocorreram, nos últimos anos, porém, quase todas calcadas numa reação firme das populações oprimidas, foram mudando este quadro de tal modo que hoje restam poucos daqueles regimes pelo mundo.
Como tantos antes dele, Milosevic foi aos extremos a fim de se manter no comando, ainda que contra praticamente toda a população de seu infeliz país. Sobreviveu ao esfacelamento da antiga Federação Iugoslava, tendo levado seu povo a guerras terríveis a fim de manter uma herança de sangue, obtida como resultado da 2ª Guerra Mundial. Também conseguiu se manter, contra tudo e contra todos, até que, afinal, acaba alijado de um poder que usou mal, deixando seu pobre país em situação muito difícil. Seu sucessor, Vojislav Kostunica, que assume em meio a muitas esperanças, terá problemas sérios a enfrentar e só poderá superá-los se tiver, no governo, o apoio que conseguiu para atingi-lo. Como a de tantos outros governantes que sucederam aos dirigentes dos ditatoriais regimes comunistas, Kostunica vai precisar de trabalho e coragem para sua tarefa.
Terá, de início, o apoio da comunidade internacional. Estados Unidos e União Européia anunciam a suspensão das sanções impostas à Iugoslávia, adotadas às vésperas da guerra de Kosovo. Os ministros do Exterior da União Européia deverão se reunir amanhã para decidir as primeiras medidas, informou ontem a Chancelaria da França, país que preside a União Européia. O presidente Jacques Chirac anunciou que as sanções serão levantadas à medida que a democracia seja adotada na Iugoslávia. A rápida evolução da situação e a queda de Slobodan Milosevic por decisão e iniciativa do povo iugoslavo requer uma resposta unificada dos países ocidentais, afirmam os diplomatas europeus. Esta é porém parte de toda a equação. Os próximos dias serão importantes e o povo iugoslavo, como aconteceu em tantas nações que conseguiram se libertar de tiranos, terá ainda muitos desafios. Importa que permaneça unido no seu propósito, garantindo o restabelecimento da liberdade que é o caminho para a verdadeira conquista da dignidade de seu povo.