EDITORIAL
Política é, conforme alguns, a arte do possível. No Brasil, chega a ser um pouco mais, verdadeiramente a arte do impossível. Não há outro modo de entender o anunciado apoio do partido do presidente Fernando Henrique Cardoso a candidatos do PT para o segundo turno em alguns dos mais importantes municípios do País, como São Paulo e Curitiba. Se o PT é hoje não só o principal mas eventualmente o único partido de oposição ao governo federal com força política e uma postura efetivamente concreta de contestação a FHC, fica complicado para o eleitor o entendimento sobre alianças entre as agremiações, por mais exercícios que se façam sobre as motivações dos homens públicos. E quando se sabe que, conforme um jornalista, o presidente da República se mostra eufórico diante do apoio de seu partido à candidata do PT em São Paulo, a reação é ainda de maior ceticismo de vez que toda a questão fica envolta em uma aparência de pouca seriedade.
A impressão era a de que diante do segundo turno, os partidos políticos que não tiveram candidatos aprovados pelo povo, ficavam limitados às próprias condições diante do quadro geral. Isto significava que os apoios eventuais para a nova disputa deveriam ser feitos conforme toda a situação preexistente de tal modo que o apoio seria dado conforme a realidade que se vivencia na política. Deste modo, os partidos derrotados escolheriam candidatos de agremiações ligadas às respectivas legendas. Caso não houvesse esta possibilidade, então a idéia seria a de se estabelecer neutralidade no pleito. No entanto, o que se percebe em São Paulo e, principalmente, no Paraná, não é isto. Na Paulicéia, Paulo Maluf esteve mais ligado ao governo federal que Marta Suplicy. Se porém ao Executivo parece pouco ético apoiar um candidato que tem sido alvo de muitas acusações, a postura do partido do presidente deveria ser a de alheamento da campanha. No Paraná, então, a questão se complica mais: Cassio Taniguchi é candidato do PFL, que é o grande aliado do governo na esfera federal. Apoiar, neste contexto, o candidato do PT, produz um quadro difícil de entender sob a ótica de uma política seriamente exercitada.
Para os políticos, de modo geral, só existe um pecado: perder eleições. Para fugir a isto, tudo é possível, até mesmo apoios que causam espanto ao eleitor. O eleitorado brasileiro não se mostra muito ligado aos partidos, como deveria. Afirma-se que esta é uma das causas de muitos problemas na própria representação política. Isso se dá por culpa do que sempre se disse a respeito da formação dos partidos. Tem-se que a reação do povo é proporcional à falta de educação política dos dirigentes partidários no País.
Todos os artifícios dos políticos, porém, acabam esbarrando na inteligência do eleitor. Não é de crer que quem tenha votado, no primeiro turno, em candidato que ficou pelo caminho, vá levar seu voto, no dia 29, para aquele que lhe indicam, nesta complicada artimanha, como se fosse um mero peão num jogo complicado. Se é possível fazer a conotação do jogo político com o xadrez, é mister entender que o eleitor não é o peão: é o rei, a peça mais importante, aquela que, embora com movimentos limitados, decide e define a atuação das demais peças. O dono do poder, seguramente, não vai se deixar embair pelos cambalachos políticos visando usufruir de vitórias falsas. No segundo turno, assim como nas escolhas do último domingo, o eleitor continua a ser o único com o efetivo poder para definir seu futuro. Não pode ser enganado pelas artimanhas dos profissionais que parecem esquecidos que não são donos do País, mas representantes do verdadeiro soberano o povo.





