Dentre os partidos da chamada base de sustentação do governo, o PSDB, que é a agremiação do presidente Fernando Henrique Cardoso, foi o que mais sofreu nas eleições do último domingo. O partido conquistou no pleito 982 prefeituras, menos que o PMDB e o PFL que elegeram, respectivamente, 1.024 e 1.250 prefeitos. Entretanto, o partido do presidente conquistou mais votos que os recebidos pelos seus aliados: o PSDB conquistou 13.402.861 votos no domingo, enquanto o PMDB registrou 13.246.367 e o PFL, 12.949.548. Esta situação acontece porque o PSDB teve maior penetração nas cidades médias, enquanto o PMDB e PFL concentram seu eleitorado em cidades de pequeno porte. Como vão disputar o segundo turno em muitas prefeituras, no dia 29, esses três partidos ainda esperam ampliar sua base política e manter a a hegemonia eleitoral para 2002. Em número de votos, a base governista concentra mais de 50 milhões em todo o País. No segundo turno, o PFL concorrerá em três capitais estrategicamente importantes e de densidade eleitoral como Rio de Janeiro, Recife e Curitiba. O PMDB, por sua vez, disputa apenas a Prefeitura de Fortaleza. Já o PSDB tenta ampliar seu espaço em Belo Horizonte, se derrotar o PSB.
Políticos ligados ao governo começam a fazer um alerta sobre a nova realidade criada pelas eleições do dia 1º, evidenciando o crescimento da oposição. O grande temor é precisamente o de uma leitura inadequada dos resultados das eleições, principalmente por causa dos números. O fato de o PSDB ter obtido mais votos do que o PMDB ou o PFL, no domingo, ou mesmo a realidade segundo a qual os partidos que apóiam o Executivo Federal conquistaram mais de 50 milhões de sufrágios, o que é quase a metade do eleitorado brasileiro, pode levar a uma conclusão perigosa, capaz de prejudicar a ótica verdadeira pela qual deve ser vista a decisão do povo, no último pleito municipal.
Sabe-se que no Brasil, em termos nacionais, o que vale é o total de votos. Entretanto, é vital insistir na necessidade de tanto o Executivo federal quanto os governos estaduais perceberem a plena insatisfação evidenciada nas urnas do último domingo. O povo, nos pequenos, médios e grandes municípios, não votou apenas nos candidatos a prefeito mas, como ficou muito patente até pela perda de prefeituras por parte de legendas de situação, contra os governos. Existe uma insatisfação crescente no País que vem sendo medida, mês a mês, através dos índices de rejeição do presidente Fernando Henrique Cardoso, que continuam mantendo patamar muito elevado.
O total de votos obtidos pelos partidos que apóiam o governo não é um indicativo aceitável da realidade que as urnas descortinaram. E o mais sério é o temor de que uma análise falha da questão possa protelar a adoção de medidas concretas capazes de modificar a situação dramática em que vivem milhões de brasileiros. O quadro está muito bem definido: os brasileiros estão preocupados com o desemprego, não estão sequer se beneficiando do surto de crescimento econômico que vem sendo anunciado, sofrem com a insegurança em suas cidades e, principalmente, começam a vivenciar um quadro de desesperança, talvez a questão mais grave de todas, porque quando um povo perde a esperança, o caos está próximo. Vale rememorar que o último ano de Governo José Sarney lançou os brasileiros numa tão terrível desesperança que o resultado foi a eleição de Fernando Collor, com todas as consequências disto decorrentes. O Governo Federal, como os estaduais, tem tempo e condições para mudar, mas só o fará se deixar de fugir da realidade e encarar a derrota que o eleitorado brasileiro infringiu à situação, no domingo.