A idéia do estabelecimento de um segundo turno para as eleições de chefes de Executivo (presidente, governadores e prefeitos) tinha uma base válida: trata-se de garantir que presidente, governadores e prefeitos tivessem, efetivamente, o voto da maioria absoluta do eleitorado. Vale rememorar que antes da instauração desse sistema, houve casos de chefes de Executivo eleitos com os votos de um terço apenas do eleitorado no País, nos estados e também nos municípios. Com isto, ficava prejudicado o princípio de que o governante representava a maioria do eleitorado. Assim, estabeleceu-se que presidentes, governadores e prefeitos em municípios maiores (aqueles com mais de 200 mil habitantes, o que representa cerca de 1% do total) precisariam obter a maioria absoluta dos votos nos pleitos normais. Se isto não acontecesse, os dois mais votados deveriam se enfrentar no segundo turno o que garantiria, em tese, para o eleito, a maioria real do eleitorado.
Acontece, porém, uma distorção no processo. Para o segundo turno, o eleitor que não votou em nenhum dos candidatos que participa da disputa terá de fazer uma escolha forçada. Não se trata mais de votar em alguém de sua preferência mas em decidir entre outros dois, usando assim critérios diversos dos que devem servir de parâmetro no pleito normal. Teoricamente, no final, tem-se um presidente, um governador e, como vai acontecer agora em muitos municípios brasileiros, um prefeito com o voto da maioria. Na prática, a questão fica um pouco diferente, representando mais uma escolha por exclusão do que por preferência real do eleitor.
O mais complicado, porém, neste quadro é o papel dos partidos políticos. Com a campanha pelo segundo turno já lançada, começavam também os conchavos para os apoios dos partidos derrotados em relação aos candidatos vitoriosos. E surgem, natural e infelizmente, algumas situações verdadeiramente absurdas. Afinal, toda a análise relativa ao pleito deixa evidente um imenso sentimento antigovernista - notadamente nos municípios maiores, que vão para o segundo turno, tanto no que diz respeito à esfera federal quanto no que tange aos governos estaduais. Entretanto, partidos visceralmente ligados ao poder, devidamente descartados pelo eleitorado, começam a se articular para apoiar este ou aquele candidato ao segundo turno, mostrando até mesmo nenhuma preocupação ética.
O fato não é de estranhar. Os partidos, no Brasil, salvo algumas poucas exceções, representam muito mais o caciquismo de alguns políticos do que uma definição de opções da opinião pública. Políticos trocam de partido como um cidadão muda de camisa e, quando não encontram nenhum com o seu molde, simplesmente criam suas próprias siglas. Muitos, como mariposas, flutuam sempre em busca da luz que emana do poder. Se o povo os descarta, mudam de cadeira, buscam logo aquele que foi escolhido para estabelecer novas alianças com o objetivo único de atender a seus interesses. Perigosamente, e na preocupação de concretizar a vitória no segundo turno, candidatos consagrados pelo povo aceitam tal aproximação, com o que ameaçam até subverter a própria base que lhes garantiu a vaga para a rodada decisiva.
Sobra então, para o eleitor (sempre) a grande tarefa, neste segundo turno, de acompanhar com maior atenção ainda os ‘acordos’ que se tentam costurar com vistas ao pleito a fim de evitar que sua decisão seja frustrada. O voto de 1º de outubro deixou clara uma postura do eleitorado brasileiro que não deve ser prejudicada, no segundo turno, por matreirices de políticos rejeitados por suas práticas e abusos e por acordos excusos que ameaçam até a essência da definição do povo.

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