O Paraná vive uma verdadeira ressaca cívica depois do verdadeiro vendaval eleitoral que atingiu alguns dos principais municípios do Estado, no pleito de domingo. Candidatos que se consideravam garantidos, pelo menos para o segundo turno, ou que acreditavam na vitória já no dia 1º de outubro, foram obrigados a reformular as idéias. Nos três maiores colégios eleitorais do Estado, a definição sobre os prefeitos ficou para o pleito do dia 29, antecipando uma nova e complicada guerra política que agita a seara situacionista estadual e revigora as esperanças de uma oposição que sente chegado o seu momento. Acima de tudo, porém, paira a figura principal do processo, o eleitor, que surpreendeu a muitos, mas que mostrou, de novo, a maturidade que está atingindo o País, com a evolução do senso de cidadania chegando, afinal, à vida política.
Curiosamente, seria de esperar que a evolução na consciência coletiva ocorresse primeiro no plano político. Em realidade, isto aconteceu nos anos 70, quando começou a grande virada, provocada pelo voto, que culminou com o fim do regime totalitário. As dificuldades que surgiram, porém, a partir da redemocratização, modificaram as coisas. O despertar do retorno à democracia trouxe tristes situações para o País. A morte de Tancredo Neves, a ascensão à presidência de José Sarney, um democrata de última hora que havia sido por muito tempo o líder do partido de apoio ao regime totalitário, foi o primeiro golpe.
A desesperança que se abateu sobre o País, notadamente no último ano de mandato do mesmo Sarney representou outro revés para quem confiava que a democracia traria soluções para as aflições do povo. Veio a eleição de Fernando Collor, até como tentativa de mudança face à atribulada situação política, e nova decepção. Depois, a posse de um Itamar Franco quase desconhecido, o caos econômico aparentemente insuperável e, afinal, o plano de estabilização da economia que repentinamente restaurou a esperança. Foi então que o senso de cidadania que já se observava nos primeiros tempos do frustrado Plano Cruzado ganhou força, garantindo inclusive ponderável parte do êxito no programa econômico. Do mesmo modo, foi aquela mudança que propiciou o sucesso eleitoral do atual presidente, mentor do programa, que conseguiu, quase sem necessitar muito esforço, eleger-se e reeleger-se. A falta, porém, de respostas mais concretas às necessidades da população, o marasmo político, a revelação de incontáveis abusos, a corrupção revelada pela imprensa, a impunidade quase que generalizada, tudo isto deixou evidente a necessidade de uma revolução de cidadania também no campo político. É o que se pode pressentir ter ocorrido no pleito de domingo.
Um dos maiores democratas da História, o presidente norte-americano Abraão Lincoln, deixou escrita como lição a afirmativa segundo a qual era possível enganar muita gente pouco tempo e pouca gente muito tempo, mas não se podia iludir toda gente o tempo todo. O eleitor brasileiro já mostrou em outras épocas uma acuidade que muitos políticos teimam em não perceber, o que tem lhes custado caro. No dia 1º, de novo, mostrou esta face no Paraná e em muitos outros pontos do Brasil. Numa eleição municipal, em que o enfoque maior é o local, o cidadão conseguiu mandar seu recado de inconformismo com toda a situação, seu claro desejo de mudanças sérias, o natural direito de ser valorizado em seus anseios, tendo também melhores condições para sua vida. Independente do que ocorra em termos de resultado, no segundo turno, o que já aconteceu mostra um eleitorado consciente de seu papel e disposto a se assumir de vez como responsável pelo próprio destino.

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