O pleito foi municipal e os analistas antecipavam que o eleitor iria privilegiar temas locais no momento de votar. Os resultados que despontam das urnas provocam porém uma leitura algo diversa. Percebe-se que em muitos – e em alguns dos mais importantes – municípios do Estado (e também no restante do país) candidatos de algum modo ligados ao Governo Federal e que surgiam com reais possibilidades de vitória (ou, ao menos, de passar ao segundo turno) sofreram pesados revezes. O eleitorado aproveitou a ocasião não apenas para definir a preferência em relação aos futuros prefeitos dos respectivos municípios mas, também, para passar um sério recado de insatisfação tanto em relação ao Governo Federal como no que diz respeito ao Governo do Estado. A decantada reeleição do prefeito de Curitiba, tida como absolutamente certa até há poucos dias, se esvaiu em um pleito equilibrado que leva ao segundo turno, com um resultado absolutamente indefinido; em Londrina, o candidato que desde o começo surgia como grande favorito, praticamente garantido pelo menos no segundo turno, e que é deputado do partido de FHC, tendo inclusive sido um dos líderes da agremiação na Câmara, amargou uma inesperada e decepcionante derrota. Em outros municípios, com maior ou menor intensidade, candidatos do PT, sem dúvida o principal partido de oposição tanto na esfera federal quanto na estadual, marcam expressivos desempenhos, derrubando favoritos, ameaçando esquemas, produzindo uma nova (e para muitos inacreditável) realidade.
A insatisfação nacional em relação ao Governo Fernando Henrique Cardoso, que vinha sendo repetida quase que desde o inicio do segundo mandato presidencial, aparentemente não foi devidamente entendida. Certamente os assessores presidenciais acreditavam que teriam tempo para mudar o quadro, pensando na sucessão presidencial de 2002. Os pleitos municipais dificilmente – acreditavam – envolveriam o Governo Federal ou mesmo os governos estaduais. O eleitor, porém, deu uma resposta diferente. E ao lado das definições diretas, visando o próprio município, também mandou o recado de rejeição aos candidatos que de algum modo tinham algum tipo de ligação, com Brasília ou mesmo com Curitiba.
Cada pleito traz em si a necessidade de reflexões plenas, notadamente entre os que detêm uma parcela do poder. No caso atual, quando o eleitorado dos municípios produz resultados como os que se estão observando, a necessidade de uma análise, e possivelmente de radical mudança de rumos, se faz mais premente. O Brasil enfrenta, hoje, uma realidade muito dramática. O povo tem suportado imensos sacrifícios e dado toda a contribuição possível visando viver uma situação melhor. A eleição e reeleição do atual presidente, ambas com maioria absoluta, sem necessidade do segundo turno, evidenciavam esperança face ao futuro. A desilusão que ocorreu logo ao inicio do segundo mandato presidencial, que se refletiu em índices cada vez mais elevados de rejeição, parece ter explodido agora. O desemprego, a insegurança, a falta de definições concretas e de decisões capazes de alterar este quadro detonaram esta reação do eleitor que, uma vez mais, fez do voto a voz de seu descontentamento.
As urnas estão falando, em todo o país, e o recado que se percebe delas é cristalino: o eleitor brasileiro está consciente de sua força e exige mudanças profundas. É hora de se reformular políticas para atender aos justos reclamos da população. Caso contrário, dentro de 2 anos, o recado aos governantes federal e estaduais poderá ser ainda mais contundente.

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