A realização de eleições a cada 2 anos (às municipais de amanhã, seguem-se as estaduais e federais, em 2002, e assim por diante) muitas vezes provoca um certo acomodamento do eleitor, inclusive diante de um voto não muito pensado. Se errar agora, pode corrigir o erro no próximo pleito. Esta postura, muitas vezes inconsciente, mas nem por isto menos real, produz enormes prejuízos na medida em que eterniza uma situação que angustia o povo, com a persistência de situações equivocadas, com o aumento nas denúncias relativas à corrupção, com o desencanto diante da falta de soluções para os problemas que atingem a população. É fato que o erro de agora pode ser corrigido, o que sempre mantém viva a esperança de uma situação melhor no futuro. Entretanto, o ideal seria que os erros do passado já tivessem servido como lição para o presente, levando o eleitor a considerar o seu voto com a devida atenção.
Importa, inclusive, observar que a idéia segundo a qual uma eleição será sucedida por outra, que as coisas vão permanecer iguais parte de uma premissa falsa e perigosa. Há eleições agora, como houve nos últimos anos, como resultado de uma intensa luta do ser humano em busca da confirmação de sua condição e dignidade. O voto não é um presente dado pelos mais fortes, nem é algo que surgiu do nada. Para que o povo pudesse se tornar verdadeiramente agente de seu destino, dono do poder, responsável único pela sua própria vida, houve lutas intensas, muito sangue correu. Mesmo no Brasil, um país que se ufana de uma tradição de transformações pacíficas, existem fatos recentes a evidenciar que o poder do povo, pelo povo e para o povo não é outorga, mas conquista.
Assim como existem monumentos dedicados ao ‘soldado desconhecido’, para homenagear aqueles infelizes que morreram ao longo dos séculos, nas múltiplas guerras que o homem realizou, e que não puderam sequer ser identificados, seria possível erigir, em cada país democrático, monumentos em memória de tantos que morreram para defender o direito do povo de se autogovernar. Os porões da ditadura Vargas, o Doi-Codi, durante o recente período totalitário, produziram incontáveis vítimas desta sangrenta guerra que sequer consta dos livros de História. Por causa do sacrifício de um número jamais determinado de mártires é que amanhã os brasileiros irão às urnas, com a certeza de que este gesto será repetido a cada 2 anos. Entretanto, exatamente em função do martírio sequer identificado de homens e mulheres que deram a vida pelo ideal democrático é que o voto individual deve ser intensamente valorizado, conscientemente exercido e defendido pelo que representa. Mais ainda, é vital perceber que será somente através do exercício elevado do voto e com a participação plena e direta do cidadão na vida democrática é que realmente haverá sequência, continuidade e, principalmente, evolução.
O voto que o eleitor depositará amanhã nas urnas não é apenas mais um na vida do cidadão. É o único, aquele elemento transformador que tanto pode melhorar quanto piorar a vida de todos os brasileiros. Não é mais nem um pedaço de papel, como no passado, mas tem a mesma força e dá, inclusive, uma idéia sobre o futuro que vai construir. Com efeito, esta era atual da urna eletrônica deixa evidente que se está vivendo, de fato, numa era diferente que exige definições. O Brasil foi chamado, desde tempos imemoriais, de ‘país do futuro’. O futuro já chegou, é o momento de se aproveitar o tempo, de se perceber que todos os erros possíveis já foram cometidos. O brasileiro precisa começar a acertar e o modo de fazê-lo é usar de modo consciente o voto que depositará nas urnas amanhã.

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