A coincidência do encerramento dos Jogos Olímpicos no dia em que os brasileiros vão às urnas, para renovação das Prefeituras e Câmaras Municipais em todo o País, enseja algumas curiosas comparações. Com efeito, há quatro anos, ao mesmo tempo em que eram eleitos os prefeitos e vereadores cujos mandatos estão terminando, O Brasil registrava seu melhor desempenho olímpico, na competição realizada em Atlanta (EUA). Foram 15 medalhas, média de uma por dia, sendo 3 de ouro. Na euforia que se produziu à época, vieram as inevitáveis garantias de que seria realizado um profícuo trabalho de base, nos 4 anos seguintes, com um objetivo concreto: melhorar a performance nacional nos Jogos de Sydney. Faltando poucos dias para o encerramento da competição, a realidade é muito diferente. Os atletas brasileiros tiveram desempenho pior do que o registrado há quatro anos, o total de medalhas conquistado caiu, há ainda esperanças de obtenção de algum ouro, mas a perspectiva é a de um retrocesso nos números e no desempenho. E, como é natural, começam as queixas e críticas, as reclamações relativas à falta de apoio, ao lado de novas promessas sobre um novo trabalho visando às Olimpíadas que vão se realizar dentro de 4 anos.
Transpondo esta situação para a política, é possível perceber, infelizmente, muitas semelhanças. Ponderável parcela dos eleitos há quatro anos não correspondeu às expectativas, a maioria não cumpriu as promessas que garantiram os mandatos, o povo está, hoje, mais insatisfeito do que em 1996 e a imagem dos políticos piorou sensivelmente, dando crédito àquela famosa piada segundo a qual o Brasil atingiu o fundo do poço mas continua a cavar... A diferença é que o povo não pode reclamar do governo, como reclama dos atletas, porque todos os que estão nos cargos de comando político foram eleitos pela população. Quer dizer, basicamente, que se há queixas ou críticas, estas devem se dirigir precisamente aos que têm escolhido os governantes. E mais críticas ainda cabem aos que se abstêm, aos que votam nulo ou em branco, porque ajudam, com a omissão, a piorar a representação política.
Diferentemente dos atletas, que necessitam de muito apoio de fora, os brasileiros só dependem de si para transformar a atual realidade e criar condições melhores para o futuro. A grande arma está aí, à mão, pronta para ser usada no domingo: é o voto. Pretender que o pleito é municipal e que por isto a mudança, por maior que seja, não terá consequências, é tentar enganar o povo. É no município que pode começar, efetivamente, a transformação que o Brasil reclama e merece. Para aquilatar a importância do voto municipal é só observar o esforço dos políticos que largam tudo (notadamente os deputados federais e estaduais e senadores) para se jogar na campanha. Buscam no pleito local a base necessária para manter seus cargos e garantir, dentro de dois anos, novos mandatos.
É possível considerar que a grande transformação pode acontecer no pleito de 2002, quando haverá eleição para presidente, governadores e renovação do Legislativo estadual, da Câmara Federal e de dois terços do Senado. A base porém para que aconteça uma nova e vital revolução pelo voto, similar a que aconteceu em 1974, quando o povo começou a derrotar a ditadura, se estabelece no domingo. Com a escolha de prefeitos e vereadores, com o fortalecimento (ou a perda de poder) dos partidos, com um novo e melhor quadro político na base, haverá condições efetivas para a concretização de maiores transformações dentro de dois anos. O processo começa agora para os municípios. E, diferentemente do que acontece no esporte, só depende dos eleitores para produzir resultados positivos.

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