EDITORIAL
O passado ensina lições que precisam ser lembradas para que, como dizem os entendidos, não sejam cometidos de novo erros antigos. No que tange às eleições, o Brasil viveu, durante os recentes anos da ditadura, uma série de situações que produziram lições importantes. Por causa da época e da própria reação mundial, a ditadura brasileira tinha de tentar criar situações para passar, pelo menos lá fora, a idéia de que o país tinha uma democracia. Era, como bem destacava o último presidente do período, o general João Batista Figueiredo, a democracia possível, um típico exercício de semântica para tentar iludir o público externo. Assim como a democracia, o voto também acabou recebendo adjetivos. O poder totalitário inventava meios a fim de evitar as sucessivas derrotas eleitorais, e o povo encontrava caminhos para contorná-los. Quando o poder tornou obrigatório o voto vinculado, fazendo com que só fosse válido o voto em candidatos de um partido para todos os pleitos, o eleitor criou o voto camarão, apenas com o nome do candidato majoritário. Surgiu nesta época, também, o voto útil pelo qual o eleitor escolhia não o candidato de sua preferência mas aquele que tivesse melhores condições de enfrentar o nome oferecido pelo totalitarismo. Com a introdução do segundo turno nas eleições majoritárias, para a presidência, governos de Estado e prefeituras com mais de 200 mil habitantes, o tal voto útil ganhou força: tratava-se de votar em alguém capaz de chegar ao segundo turno, ainda que em detrimento do candidato preferido do eleitor.
Nas atuais eleições, em 57 dos 5.655 municípios brasileiros, os que contam com mais de 200 mil eleitores, pode haver a necessidade da realização do segundo turno. Isto acontecerá, como se sabe, se nenhum candidato, naqueles municípios (que são, o que parece desnecessário repetir, os mais importantes do País), obtiver a maioria absoluta dos votos. Isto acontecendo, ocorrerá ali, no dia 29 de outubro, o segundo turno, envolvendo os dois mais votados no pleito do próximo domingo. Esta situação, faltando poucos dias para o pleito, faz ressurgir a famosa figura do voto útil, pela qual se tenta levar o eleitor a fazer uma escolha de exclusão: ao invés de votar no candidato de sua preferência há a sugestão de votar em outro, com mais possibilidades de chegar ao segundo turno. Usa-se para um maior convencimento as pesquisas eleitorais, com um esforço de aglutinação que pode ser interessante, mas que ameaça a própria essência do voto.
O voto não é, apenas, a expressão da vontade do eleitor, mas representa a verdadeira arma através da qual o cidadão executa o primado constitucional que o estabelece como único detentor do Poder. É uma realidade que não necessita de adjetivação. A possibilidade de um segundo turno não deve, por si, levar o eleitor a abandonar aquele candidato que ele considera o melhor para a cidade mas, ao contrário, deve entusiasmá-lo a fazer a escolha que lhe parece a mais correta. As pesquisas, e é inegável que hoje este tipo de trabalho atingiu um nível elevado, sendo confiáveis quando executadas por órgãos de respeito, servem para indicar uma tendência, mas não representam o resultado final. Quando um eleitor se deixa levar por uma pesquisa e modifica o seu voto, pode estar declinando até do seu poder, como formador do governo. E, em certos casos, ameaça as possibilidades do seu candidato. O segundo turno constitui uma outra realidade. No domingo, o eleitor em todos os municípios brasileiros, inclusive nos 57 que podem ter um novo turno, terá a missão de votar com consciência no nome que lhe pareça o melhor. Só assim o Brasil terá uma eleição capaz de refletir melhor as tendências e objetivos de seu povo.





