São mais do que justificadas as reclamações do povo em relação à impunidade dos políticos. Com efeito, causa revolta a falta de punições, a continuidade dos abusos, a corrupção deslavada e aparentemente invencível. Para a população é muito difícil entender como certos homens públicos acusados pelos mais diferentes crimes continuam a atuar nos legislativos e até nos executivos, sem nenhuma consequência apesar do que façam. Sem dúvida, uma situação que provoca descrédito para a própria democracia, levantando dúvidas a respeito do próprio sentido do voto e da democracia.
Importa insistir, entretanto, em que existem razões para justificar a dificuldade em se cassar um mandato. A lei exige muito, até como meio de defesa do mandato popular. Facilitar demais os processos contra os políticos pode criar um problema até maior. O político eleito precisa, mesmo, ser mais protegido porque representa os votos que recebeu. Ocorre que este é só um lado da questão. Paralelamente, há a morosidade da Justiça, que se observa em praticamente todos os campos, e que acaba por dificultar ainda mais o processo político e, paralelamente, cria maiores restrições populares à política de modo geral.
Mais difícil, porém, do que perder um mandato pela via judicial, é ganhar um através do voto. A obtenção dos votos suficientes para conquistar um mandato no Executivo ou no Legislativo constitui tarefa difícil e (apesar de todas as mudanças na legislação eleitoral) cara. E é neste processo, no momento da escolha, que o eleitor pode fazer aquilo que reclama da Justiça: evitar a eleição de políticos corruptos. Há pelo menos um bom processo inicial de identificação: o eleitor deve descartar desde logo aqueles que já foram eleitos e que acabaram acusados por atitudes ilegais ou imorais. No pleito deste domingo, há uma imensidão de vereadores (e também de prefeitos, face à reeleição) que já deixaram evidente, ao longo do atual mandato, que não foram dignos da confiança popular. Não perderam os mandatos, muitos sequer chegaram a enfrentar um julgamento, outros acabaram absolvidos pelos próprios pares. Agora, porém, é a hora de o eleitor produzir a cassação mais simples e concreta, não votando naqueles políticos.
Um pouco menos simples é a escolha diante dos que nunca receberam mandato e que agora disputam o voto. Entretanto, como se está diante de eleições municipais, também é possível, até porque os candidatos estão muito mais próximos dos eleitores, conhecer bem os postulantes, evitando eleger aqueles que sejam suspeitos em relação aos seus propósitos. Isto exige, naturalmente, uma análise maior, o que porém não deve ser um problema, porque o mínimo que se exige do eleitor é que tenha cuidado e respeito pelo seu voto, analisando bem o que vai fazer na urna eletrônica. Ali, livre, sem vigilância, tendo a própria consciência como guia, ele tem o poder de exercer aquilo que não percebe existir, a Justiça Eleitoral.
O ato físico de votar está se tornando cada vez mais fácil. Com a urna eletrônica, o processo é simples. Entretanto o voto em si é o fator vital no exercício democrático. Todos quantos reclamam da morosidade da Justiça, da impunidade, da falta de compostura dos políticos têm, a partir do voto, a possibilidade de realizar a depuração mais completa, a seleção melhor, pela escolha que vão fazer no próximo domingo. Aqueles que votam sem pensar, os que se abstêm, os que vão à urna mas não escolhem são tão responsáveis pelas consequências quanto os que não puniram os corruptos ao longo dos anos. Diz-se que todo o povo tem o governo que merece. É nas eleições que o eleitor pode mostrar que merece coisa melhor do que o que se tem agora.

mockup