Na semana que precede as eleições, quando os brasileiros serão chamados a eleger os prefeitos e vereadores de todos os municípios do país, o quadro não é dos mais positivos. O eleitor, principal agente do processo democrático, se mostra desconfiado em relação aos políticos. Mais que as pesquisas, que indicam, em quase toda a parte, um elevado índice de indefinição, o clima que se percebe - a falta de interesse da grande maioria e a repetição de comentários que evidenciam uma quase total falta de esperança - efetivamente é o que mais preocupa. A culpa disto, possivelmente, é dos políticos de modo geral, que vêm perdendo a confiança popular de modo constante, o que pode ser facilmente constatado pelo total de votos nulos e em branco, modo pelo qual ponderável parcela do eleitorado indica seu inconformismo. Não é demais sequer considerar que, se o voto fosse facultativo, o índice de abstenção poderia ser dos mais elevados. A obrigatoriedade leva o eleitor à urna, mas não o motiva a escolher, o que produz essa situação assustadora.
Nunca será demais lembrar que o Brasil viveu uma excepcional mudança política em função do voto. Com efeito, a grande transformação que acabou provocando o fim da própria ditadura, sem a necessidade de contra-golpes, sem sangue, começou através do voto de um povo que conseguiu burlar os casuísmos do regime autoritário e que, para cada tentativa de frustrar o eleitor, respondia com uma consciência impressionante. A grande virada que começou em 1974 e culminou com a eleição indireta de um candidato que não era o da ‘revolução’, constitui sem dúvida um dos maiores demonstrativos da importância e do poder do voto.
Infelizmente, as frustrações que se sucederam, após a redemocratização, acabaram por modificar a situação e produzir o atual quadro de descrédito. As esperanças depositadas em Tancredo Neves se frustraram por uma fatalidade do destino. Os abusos, a falta de sensibilidade dos políticos, os erros e também os crimes que cometidos contra a população tornaram a reação ainda pior. Com isto, perdeu-se de vista o enorme poder de transformação das eleições, ficando apenas a idéia da corrupção que parece tão entranhada na vida pública que nada será capaz de vencê-la.
Entretanto, é vital também perceber que, se existe, hoje, o conhecimento pleno dos atos abusivos, da corrupção que se instalou no poder político, isto decorre da própria existência da democracia. É a liberdade de imprensa que acabou por revelar ao povo aquilo que, infelizmente, existiu quase sempre e que era escondido. Pretender que a vida pública seja mais corrupta hoje do que à época do totalitarismo, ou mesmo antes, é um equívoco perigoso. A verdade é que atualmente há liberdade de expressão, a imprensa vem exercendo seu papel, revelando o que antes era escondido. Importa agora é que o povo - o legitimo, o único detentor do poder - perceba que tem também sua parcela de responsabilidade face aos desmandos e crimes que se cometem na vida pública. Afinal, os políticos que aí estão, em todos os cargos eletivos, foram escolhidos pelo povo. E se os partidos realmente, na maioria, pouco significam, isto também decorre da falta de participação do próprio eleitor, que se omite, prefere ficar à margem, pretendendo não ter uma responsabilidade que, no fim, é sua. A democracia é o caminho e depende fundamentalmente do eleitor a transformação que se pretende. A uma semana do pleito, é fundamental que ocorra esta conscientização porque só através dela, de uma participação concreta e firme do eleitor, é que será possível mudar esta realidade e garantir uma representação digna para este povo.

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