Editorial
O México viveu, no último final de semana, um momento verdadeiramente histórico. O Partido Revolucionário Institucional, que dominou a vida política mexicana nos últimos 70 anos, durante os quais a prática democrática foi no mínimo discutível, sofreu a primeira grande derrota eleitoral de sua história. O novo governador eleito do Distrito Federal é da oposição, que também conseguiu quebrar a maioria absoluta que o PRI mantinha, por sete décadas, no Legislativo nacional.
Foi um resultado antecipado pelos observadores. Mais importante, porém, foi a reação das lideranças do PRI. O presidente do México, Ernesto Zedillo, considerou histórica a votação de domingo. Demos um passo irreversível e definitivo em direção ao anseio de muitas gerações de mexicanos de viver numa democracia plena, disse Zedillo num longo discurso na Cidade do México. Durante muitas décadas nossa energia política esteve voltada para outros aspectos do projeto nacional, acrescentou, justificando a longa permanência de seu partido no poder. Zedillo elogiou também o comportamento dos partidos de oposição e assinalou que os novos avanços democráticos serão produto da soma de esforços de todos os setores da vida política do país e não da confrontação.
A conquista vinda das urnas é, sem dúvida, a grande, a verdadeira e a única revolução capaz de mudar de forma duradoura e participativa a vida de uma nação. O México tem uma história conturbada, de opressão, revoltas e guerrilhas. Ultimamente, as populações indígenas, sem dúvida as mais exploradas ao longo dos séculos, partiram para a luta armada contra o governo. Mas o uso da força não mudou em nada a situação das comunidades oprimidas, só criando mais tensão e sofrimento. A opção da guerra não é, nem no México nem em parte alguma, a solução para os problemas nacionais, provocando apenas mais dor, sangue e revolta.
O caminho, ainda mais quando finalmente o povo consegue viver a democracia, é o das urnas. O México, apesar de todos os vícios cultivados pelo PRI, está no rumo da democracia. E há de ser através da manifestação do povo nas urnas que será possível aprimorar, corrigir as distorções, atingir de fato aquele estágio de liberdade real que todos os povos anseiam para realizar seus ideais. O que aconteceu no último domingo evidencia a vontade popular traduzida pelo voto. O PRI, que foi na prática um partido único, tal sua força em mais de meio século, não é mais hegemônico. O muro de Berlin mexicano também desabou.
A força do voto pode tardar, como a justiça, mas não falha. No Brasil sabemos muito bem disto. Em 1974 a eleição para o Congresso Nacional quase deu maioria à oposição. Para isso não acontecer, o governo criou a figura do senador biônico, neutralizando a enxurrada de votos oposicionistas que veio em 1978. Mas nas eleições seguintes não conseguiu mais segurar a avalanche popular, que na década de 80 elegeu governadores e tomou as ruas com a campanha das diretas para presidente da República.
Hoje, o Brasil tem um povo mais consciente de seus direitos e deveres. Ainda não plenamente, na parte dos deveres, mas mais responsável e sério do que em outros tempos. O povo é o grande patrimônio de uma nação e quanto melhor ele for, maior será a riqueza de seu país. A expressão de sua vontade nas urnas é a grande revolução pacífica de que se fala quando se compara as virtudes da democracia com o terror das ditaduras. Os mexicanos, no domingo, deram o primeiro passo para sair do marasmo de um regime de partido quase único. Seguramente, é o começo da virada pela qual o povo assume seu destino, consciente e corajosamente.





