Durante o período totalitário vivido pelo Brasil, um então ministro da Fazenda afirmou, com a maior desfaçatez, que as eleições inflacionavam a economia. Atualmente, a impressão é a de que os pleitos prejudicam o próprio funcionamento da democracia. Com efeito, o Brasil funciona com um calendário anual típico: os políticos só consideram produtivos os anos em que não há eleições. Isto significa que a cada 2 anos a atividade efetiva dos políticos eleitos pelo povo pára, em função dos pleitos. É o que se vê este ano, como já ocorreu durante o período que antecedeu as eleições presidenciais e como se tem vivido desde a redemocratização. Fala-se, com a maior sem-cerimônia, que não se deve esperar nenhum avanço, notadamente no campo legislativo, durante o ano eleitoral. Em função desta situação atípica, o Brasil tem atravessado os anos sem ver resolvidos alguns de seus mais graves problemas. Vale rememorar que, desde o lançamento do programa de estabilização da economia, no governo Itamar Franco estava implícita a necessidade da realização de profundas mudanças estruturais, fundamentais para o sucesso do plano. Até agora, as reformas não foram complementadas, sendo conduzidas de modo confuso nos anos não eleitorais e ficando quase paradas nos períodos em que há eleições.
O que acontece agora, no Brasil, portanto, não é de surpreender. Faltando menos de duas semanas para as eleições municipais, há uma paradeira quase que generalizada por parte dos Legislativos, principalmente. Indicando a necessidade de participar das campanhas, mesmo não disputando nada, deputados estaduais e federais, e também senadores, deixam de lado suas atribuições, sem nenhuma preocupação. É importante lembrar que existem, para todas as casas legislativas, suplentes. São aqueles políticos que não conquistaram votos suficientes para se eleger, mas formam um apreciável contingente que pode ser convocado no caso da vacância de cargos. O correto, aparentemente, seria que parlamentares que disputem os pleitos de meio de mandato ou os que consideram importante participar das campanhas se licenciassem, permitindo a convocação de suplentes, com o que o Legislativo poderia seguir funcionando.
Acontece que prevalece, entre a maioria dos que foram eleitos pelo povo, outro tipo de raciocínio. Encaram o mandato como propriedade, não pensam no prejuízo que dão ao Governo e à própria democracia, na medida em que atitudes como estas tornam ainda pior a imagem do político junto ao povo, e criam situações como a atual. A alternativa para a população, especialmente para o eleitor, não deve ser a de generalizar, reduzindo sua fé na democracia, mas a de analisar com atenção tudo o que se passa, agindo de modo a mudar esta realidade. Há, para o caso, dois remédios: o primeiro é o que o eleitor brasileiro vai ministrar no próximo dia 1º de outubro, o do voto. Ao invés de criticar os políticos, genericamente, o eleitor precisa debruçar-se sobre o quadro que lhe é oferecido no seu município, votando com a maior consciência a favor dos políticos que melhor perfil democrático ofereçam.
O segundo remédio, eventualmente mais complicado, é o que se vem ministrando nos últimos tempos através da mobilização que está ocorrendo por toda parte, com movimentos que exigem ética e moralização na política. Embora as eleições constituam o momento maior da democracia, o exercício da cidadania se faz diuturnamente, com vigilândia e firmeza, com atitudes que já produziram até a queda de um presidente. A resposta do eleitor-cidadão ao descaso, ao abuso, à falta de ética dos políticos, através de sua permanente mobilização, garante o continuidade e o fortalecimento da democracia.

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