A decisão de se dar enfâse à redução do alto índice de atropelamentos registrados no país, durante a Semana Nacional do Trânsito, que começa hoje, é das mais acertadas. Uma certa tendência de responsabilizar o pedestre pela situação é discutivel. Sem dúvida, é possível considerar que exista imprudência por parte de muitos pedestres. Entretanto, levando em conta a própria condição de inferioridade do ser humano face à máquina e, também, considerando o modo abusivo como muitos motoristas atuam, tratar o pedestre como responsável maior diante do quadro é não apenas equivocado mas produz uma quase inevitável tendência de se piorar a questão.
O atual Código Nacional de Trânsito dedica todo um capítulo aos pedestres e prevê inclusive multas em determinadas situações. Aplicar as multas é complicado até porque não existe uma ‘carta de habilitação para pedestres’, nem há (felizmente) a necessidade de uma licença para o cidadão transitar pelas cidades. Assim, a parte relativa ao assunto é, de fato, falha. Quando uma penalidade é impossível (o que é o caso) de ser aplicada, a própria lei passa a ser contestada. Ademais, não se trata de pretender pressionar o pedestre, através da multa, para evitar que haja de modo irresponsável ou abusivo no trânsito, mas de buscar meios para melhorar a educação. Aqui, como no caso geral que envolve todo o trânsito, o que se tem mesmo é uma deficiente educação, talvez o mais sério problema que envolve todo o assunto e que tem sido enfrentado com algum sucesso, conforme se observa pela redução nos acidentes em praticamente todo o país.
Assim como tem havido um estímulo para que se faça a educação para o trânsito nas escolas, também é válida a intenção de se introduzir ali a orientação para os pedestres. Afinal, não se pode esquecer que ponderável parcela das vítimas de atropelamentos nas ruas das cidades é formada precisamente por estudantes, crianças e jovens, colhidos a caminho da escola ou de volta para casa. Sem dúvida uma orientação mais específica aos estudantes sobre o modo como se comportar nas ruas é importante. O risco maior, porém, é o de transferir só para o pedestre a responsabilidade, o que pode tornar o motorista ainda mais truculento e irresponsável do que tem sido naturalmente.
Há alguns anos, muitas campanhas para o trânsito levavam em conta o pedestre e tentavam aumentar a responsabilidade dos motoristas em geral. Um dos mais interessantes ‘slogans’ criados no passado dizia: ‘Motorista, atrás de uma bola, vem sempre uma criança’. Dava bem a idéia da importância de se proteger o pedestre. No momento em que se inverte a questão, as coisas se complicam e se tornam mais perigosas. Muda-se inclusive o enfoque, tornando-se o motorista (e o veículo) mais importantes que o pedestre, com todas as consequências negativas possíveis. Ademais, existe aí uma inversão danosa porque desampara ainda mais o cidadão, convertendo-o quase que em refém de um trânsito que já é por si caótico, e que pode se tornar ainda mais perigoso, na medida em que se transfira a responsabilidade para quem anda a pé.
O Brasil tem perdido, anualmente, milhares de cidadãos como resultado de acidentes de trânsito. Algumas vítimas entre os pedestres. Modificar esta situação representa uma necessidade efetiva e o trabalho todo que se tem feito, inclusive através uma legislação dura e séria, é extremamente valioso. É vital, entretanto, que não se perca de vista o papel de cada um dos elementos que formam o trânsito, insistindo na responsabilidade dos que dirigem veículos diante dos que transitam a pé. Valendo lembrar que os veículos servem às pessoas e não o contrário.

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